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Foi em Victoria, na ilha de Vancouver, província canadiana da Colúmbia Britânica, que encontrámos um museu que perdeu a sua casa de cinquenta anos e hoje sobrevive com imensa dignidade, diga-se, numa galeria comercial duma rua do centro da cidade.

Em Bastion Square, mesmo a chegar ao porto, um edifício nobre datado de 1889, outrora o tribunal da cidade, ostenta uma placa que testemunha a inauguração das novas instalações do Museu, em junho de 1965, pelo governador geral do Canadá. Tínhamo-nos orientado pelo Google Maps e tudo parecia bater certo, só não encontrávamos a porta de entrada.

Uma placa que testemunha a inauguração das novas instalações do Museu, em junho de 1965 (foto João Gonçalves)
Uma placa que testemunha a inauguração das novas instalações do Museu, em junho de 1965 (foto João Gonçalves)
O antigo edificio do MMBC em abril de 2015 foto Benjamin Madison

Circundámos o edifício e admirámos as suas quatro fachadas e apercebemo-nos que estava fechado, sem sinal de vida do museu. Foi mais tarde que o viemos a encontrar na sua atual localização, no número 634 de Humboldt Street, na galeria Noodka Court, num edifício urbano de seis andares. Para nós, portugueses, que temos o nosso Museu de Marinha instalado num dos locais mais nobres de Lisboa, ver um museu marítimo localizado numa galeria comercial foi um choque.

Entrada principal no número 634 de Humboldt Street, na galeria Noodka Court (foto cortesia do Institute for Canadian Citizenship)
Entrada principal no número 634 de Humboldt Street, na galeria Noodka Court (foto cortesia do Institute for Canadian Citizenship)

Em 2014, devido ao avançado estado de degradação estrutural do edifício de Bastion Square, o museu foi obrigado a deixar aquela que tinha sido a sua casa nos últimos 50 anos. Infelizmente sem uma alternativa adequada para se instalar e guardar o seu importante espólio.

O Museu Marítimo da Colúmbia Britânica (Maritime Museum of British Columbia – MMBC) reúne um espólio em enriquecimento permanente desde sua criação, em 1955. Nele se incluem três veleiros de importância histórica para a Colúmbia Britânica, cerca 35.000 objetos, 8.000 livros, incluindo publicações raras, e uma extensa coleção de documentos composta por textos, planos de navios e cartas de navegação, entre outros. A maioria desta coleção está armazenada numa instalação externa climatizada, fornecida pelo governo da Província. Mas, outra parte teve de ficar num armazenamento adaptado, não climatizado e, portanto, com riscos significativos para a sua conservação.

A biblioteca do Museu permite o acesso a inúmera documentação pertencente ao seu rico espólio. (foto João Gonçalves)

Quando em setembro de 2018 visitámos este museu, pudemos deliciar-nos com uma interessantíssima exposição temporária – Home Port Heroes – que homenageava a memória dos cidadãos comuns, homens e mulheres, que nas duas guerras mundiais contribuíram para o esforço de guerra na “frente doméstica”. Com ênfase naqueles que viveram na costa noroeste do Pacífico, a exposição apresentava um valioso conjunto de fotografias, uniformes e outros objetos da coleção do Museu Marítimo.

Cartaz da exposição Home Port Heroes (foto João Gonçalves)
Cartaz da exposição Home Port Heroes (foto João Gonçalves)
Área de exposição de Home Port Heroes (foto MMBC)
Área de exposição de Home Port Heroes (foto MMBC)

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939, cresceu a necessidade de construir mais navios. No entanto, um grande número de trabalhadores qualificados da indústria de construção naval partiu para o exterior para combater. Foi nessa época que a sociedade canadiana testemunhou uma mudança monumental, quando as mulheres vieram preencher muitos empregos necessários, mas considerados altamente incomuns e contra as normas de género em vigor na época.

O uniforme de “Dottie”, simboliza as mulheres que colaboraram na homefront (foto MMBC)
O uniforme de “Dottie”, simboliza as mulheres que colaboraram na homefront (foto MMBC)

A exposição também abordava os navios de pesca e de recreio que foram requisitados pela coroa. Navegando em mares perigosos e enfrentando águas infestadas de inimigos, esses heróis desconhecidos colaboravam no transporte das tropas e forneciam abastecimentos vitais para as várias frentes de combate. Mais de 1.600 marinheiros canadianos e da Terra Nova perderam a vida nesta missão. Na exposição estava a memória do HMCS GALIANO(*), um navio de fiscalização da pesca, que patrulhava a costa da Columbia Britânica durante a Primeira Guerra Mundial. O navio desapareceu há quase 100 anos, em outubro de 1918, e foi o único navio de guerra canadiano perdido durante a Primeira Guerra Mundial.

A guarnição do HCMS GALIANO, fotografada em 1918, no castelo de proa, junto da peça de artilharia de 6 polegadas/152,4mm (foto Canadian War Museum)
A guarnição do HCMS GALIANO, fotografada em 1918, no castelo de proa, junto da peça de artilharia de 6 libras/57mm (foto Canadian War Museum)

O Museu está em processo de reestruturação desde a saída da antiga sede, em dezembro de 2015, e graças à generosidade contínua dos seus doadores, patrocinadores, patronos e proprietário – a Wottrich Holdings Ltd. – tem conseguido manter um rumo estável durante estes tempos de mar revolto. De facto, o Museu não só conseguiu sobreviver financeiramente, mas também conseguiu estabelecer novas iniciativas educacionais e de alcance público, além de criar eventos e de assumir o controle dum importante evento local, o Victoria Classic Boat Festival.

Uma das inúmeras palestras sobre cultura marítima (foto de James Holkko)
Uma das inúmeras palestras sobre cultura marítima (foto de James Holkko)
Uma das iniciativas de maior sucesso do Museu é o festival anual de embarcações clássicas (foto de James Holkko)
Uma das iniciativas de maior sucesso do Museu é o festival anual de embarcações clássicas (foto de James Holkko)

O Museu continua a trabalhar junto dos representantes locais provinciais e federais, no sentido de tentar encontrar soluções positivas e de longo prazo que preservem a coleção e permitam que ela seja adequadamente exibida e interpretada pelo público, de preferência num horizonte até 2021, que é o 150º aniversário da entrada da Província da Colúmbia Britânica na confederação.

Área didática dedicada ao ensino da arte de marinheiro (foto João Gonçalves)
Área didática dedicada ao ensino da arte de marinheiro (foto João Gonçalves)
Pormenor da área didática dedicada ao ensino da arte de marinheiro (foto João Gonçalves)
Pormenor da área didática dedicada ao ensino da arte de marinheiro (foto João Gonçalves)

Atualmente, desde 12 de abril e até 27 de outubro de 2019, o Museu tem em exibição uma exposição sobre a “Grande Ilha de Lixo do Pacífico”, um alerta para a enorme poluição por plástico que a humanidade está a provocar nos oceanos e que ameaça a vida em todo o planeta.

Cartaz na atual exibição temporária (foto MMBC)
Cartaz na atual exibição temporária (foto MMBC)

(*) His Majesty Canadian Ship (sigla dos navios militares canadianos)