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Natal

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A ceia de Natal e uma depressão, aproximavam-se quase à mesma velocidade do convés do Sartorius.

Disse o meu avô.

Fomos introduzindo cada um na boca, garfadas de lascas tenras e sobrepostas de bacalhau, acompanhada de batatas quase redondas, de feijão verde longo e carnudo, com cenouras francamente doces, cebola separada em abobadas perfeitas e esferas de grão macio, e um ovo, tudo cozido, e mastigávamos em silêncio, até ser altura de uma golada de um vinho tinto de Tormes, e, ainda melhor, ele prosseguir com a estória.

Decoração de Natal (pormenor imagem Tyler Rutherford)
Decoração de Natal (pormenor imagem Tyler Rutherford)

Tinha-se formado na bordadura do Industão, típica da diferença de temperaturas, que se fazem sentir de um e do outro lado do sub-continente indiano

continuou

e vinha por aí fora, a encher-se, a avolumar, e pronta a cair em cima de nós, quando o dia estivesse a acabar.

Decoração de Natal (pormenor imagem Tyler Rutherford)
Decoração de Natal (pormenor imagem Tyler Rutherford)

O meu avô e eu, fazíamos aquela ceia de Natal, há vários anos, e muito sinceramente, o melhor presente que esperávamos daquela noite mágica, era que tudo aquilo se repetisse para o próximo ano.

Reuni no meu camarote, o chefe de máquinas e o imediato,

molhou um pouco de broa no azeite dourado, meteu-a na boca prazerosamente,

porque era necessário decidir se assim, havia ou não ceia de Natal.

Por uma nesga da janela da sala, conseguia ver-se um pedaço da baía de Cascais, e um bom troço do firmamento, pejado de estrelas.

O chefe, era um excelente maquinista, e não suportava o silêncio. Dizia-se que em terra, nos seus curtos períodos de descanso, tinha um papagaio que imitava à perfeição o barulho das máquinas.

Oficiais dum paquete, 1936 (Australian National Maritime Museum’s Samuel J. Hood Studio collection)
Oficiais dum paquete, 1936 (Australian National Maritime Museum’s Samuel J. Hood Studio collection)

Continuámos a comer e a beber.

Já o imediato era um bom marinheiro, mas que tinha feito a carreira quase toda nos navios carvoeiros, nas grandes rotas oceânicas, mais próximas do outro lado da Lua do que de terra, e por isso era dado a certas informalidades, e por isso já o tinha apanhado na ponte em pijama.

Continuamos a comer, e depois ele retomou a conversa.

Alguém, não me recordo quem, disse que se o assunto era esse, então propunha que se chamasse o cozinheiro para também se pronunciar. Mesmo que sem me conseguir lembrar de quem é que disse aquilo, ainda hoje me apetece torcer-lhe o pescoço, porque com o cozinheiro éramos quatro, e eu não queria empates na decisão, e sabendo que esta seria sempre minha. Não houve outra alternativa se não mandar chamar o pianista. O qual permanentemente em altíssimos devaneios, onde compunha uma sinfonia a quatro mãos e três pés, e que nós desalmadamente dizíamos que era ideal para o John Silver, ainda perguntou se era para levar o piano.

Rimo-nos os dois, até ele ficar sério, e fingir que olhava a paisagem.

Sabes, penso que a humanidade nunca mais se recompôs depois de Pôncio Pilatos ter tomado aquela decisão sozinho.

Disse e ficou mesmo a sério, a olhar lá para fora.

Por uma nesga da janela da sala, conseguia ver-se um pedaço da baía de Cascais, e um bom troço do firmamento, pejado de estrelas.
Por uma nesga da janela da sala, conseguia ver-se um pedaço da baía de Cascais, e um bom troço do firmamento, pejado de estrelas.

O jantar tinha começado com meia papaia para cada um, regada com limão, acompanhadas de um Madeira sequíssimo.

Tinha-se seguido um caldo verde enriquecido com paio e azeitonas, e depois o bacalhau cozido.

Daqui a pouco ia seguir-se maçã assada, pão de passas com queijo Serpa, e depois café do vale do Paraíba, e um Porto, colheita de um bom ano.

Seria preciso adotar determinadas medidas de segurança contra a tempestade, mas acabou mesmo por ser o cozinheiro a decidir tudo, quando leu a ementa.

Ao lado do prato de cada um de nós estava a prenda que íamos trocar. Um livro, que era aquilo de que mais gostávamos.

Uma abertura de absinto gelado a neve dos Cárpatos, lagosta do Maine suada em champanhe Pol Roger, linguado de Sesimbra com puré de cerejas, vitela argentina acompanhada de arroz de romã, gelado de abrunhos embebido em calda de açafrão de Cachemira, tudo regado a Reno frio e Château Mouton Rothschild de 36, conhaque velho e café do vale do Paraíba.

Missão geológica de Angola 1922-1925. Notícia dos trabalhos realizados. (Arquivo do MMG/MNHN-UL)
Missão geológica de Angola 1922-1925. Notícia dos trabalhos realizados. (Arquivo do MMG/MNHN-UL)

Levámos as prendas, as bebidas, e uma terrina com docinhos algarvios de amêndoa para dois cadeirões que dominavam a sala, e abrimos as prendas.

O meu avô tinha-me dado um livro belissimamente encadernado, sobre uma excentricidade astronómica detetada sob os céus da Huíla, por um tal H.C.P.R. Maldonado Vaz, Capitão de Fragata, Chefe da Missão Cartográfica ao Planalto de Angola, em 1921. E eu, Relato de um certo oriente, de Milton Hatoum.

E depois preparámo-nos para o melhor. Dois charutos Churchill da Romeo & Julieta, e naturalmente, o final da estória.

Relato de um certo oriente, de Milton Hatoum
Relato de um certo oriente, de Milton Hatoum

Quando apanhámos os charutos a fumar decentemente, eu ajudei, e fiz a pergunta.

Claro que se realizou. E foi um sucesso.

Respondeu ele.

Levou a mão ao bolso interior do casaco, e tirou de lá uma fotografia que devia lá estar desde a altura em que tinha escolhido aquela estória para a ceia deste ano, e passou-ma.

Passageiros a jantar a bordo dum paquete.(Maritime Museum Finland)
Passageiros a jantar a bordo dum paquete.(Maritime Museum Finland)

Numa bela reprodução a preto e branco, via-se distintamente o meu avô, que já naquela altura era um homem bonito, a presidir a uma mesa com a sua farda de gala, com os galões de comandante, rodeado de comensais, mais do que contentes, quase eufóricos.

As senhoras com mangas reduzidas e decotes amplos, para deixarem mais espaço para a joalharia, e os cavalheiros de dinner jacket, e todos, todos, com um belíssimo colete de salvação entalado no pescoço, onde se podia ler claramente a palavra Sartorius.