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Este livro não é só sobre a guerra na Guiné. Sendo verdade que a maior parte dele é passado nesse local e período, também tem muito da vida do autor, a sua história, começando na juventude, passando pela guerra e pelo 25ABR74 e aflorando um outro tempo, o dos velhos, dos mais tarde chamados de “antigos combatentes”.

Assim reza a badana da contracapa da 1ª edição da obra que aqui comentamos.

O TGen Pilav Martins de Matos autografando o livro, durante a sessão de apresentação da 1ªedição, em novembro de 2018 (foto gentilmente cedida por Luís Graça do blog Luís Graça & Camaradas da Guiné)
O TGen Pilav Martins de Matos autografando o livro, durante a sessão de apresentação da 1ªedição, em novembro de 2018 (foto gentilmente cedida por Luís Graça do blog Luís Graça & Camaradas da Guiné)

O autor, António Martins de Matos, ingressou na Academia Militar, curso de Aeronáutica, em 1964, sendo alferes piloto em 1969, qualificando-se em seguida, em 1971, nas aeronaves F-86 e Fiat G-91.

Entre maio de 1972 e fevereiro de 1974 cumpriu uma comissão de serviço na Guiné, na base de Bissalanca, realizando então um total de 500 missões, 113 em DO-27 e 387 em Fiat G-91. Foi piloto da Esquadrilha “Asas de Portugal”, comandou a Base de Beja, 2º Comandante do Comando Aéreo NATO em Torrejon e, já como Tenente-General, Comandante Operacional da Força Aérea (COFA) e posteriormente Comandante da Logística, passando à reserva em fins de 2006.

Um avião Fiat G.91 R/4 da esquadra 121 "Tigres de Bissalanca", estacionado na BA.12 (imagem TGen José Fernandes Nico, via Mais Alto)
Um avião Fiat G.91 R/4 da esquadra 121 “Tigres de Bissalanca”, estacionado na BA.12 (imagem TGen José Fernandes Nico, via Mais Alto)

É um livro escrito na primeira pessoa, com muito de autobiográfico, que aborda um período particularmente difícil da guerra na Guiné. O aparecimento súbito dos misseis terra-ar STRELA, da artilharia de 130 mm e dos foguetes de 122 mm levou as hostilidades em 1973 a subirem de patamar; algumas guarnições de fronteira, como Guidaje, foram objeto de muita pressão e, no sul, os quarteis de Guileje e Gadamael foram abandonados, permitindo então  ao PAIGC cantar vitória.

Num curto espaço de tempo a Força Aérea perdeu 5 aeronaves e 4 pilotos; mas em breve, conhecendo as características técnicas dos mísseis STRELA e definidas as táticas de defesa, os Fiat G-91 voltaram aos céus da Guiné e a apoiar os quartéis do exército mais pressionados.

Destroços do avião Fiat G.91 R/4, nº5419, abatido por um míssil STRELA, em 1968, na Guiné Portuguesa.
Destroços do avião Fiat G.91 R/4, nº5419, abatido por um míssil STRELA, em 1968, na Guiné Portuguesa.
O míssil terra-ar 9К32 “Cтрела-2” ou Strela-2, e o seu lançador portátil. O nome de código OTAN deste míssil era SA-7 GRAIL. (imagem US Navy)
O míssil terra-ar 9К32 “Cтрела-2” ou Strela-2, e o seu lançador portátil. O nome de código OTAN deste míssil era SA-7 GRAIL. (imagem US Navy)

Também nos é referida a visita em princípios de 1973 do CEMGFA, General Costa Gomes, e a orientação politico-militar que o Governo transmitia ao General Spínola

não haveria apoio adicional em tropas e armamento da Metrópole, e a recomendação era … retirar para o centro … e aguardar.

O Governador não aceitou terminar a sua manobra psico-social junto das populações e regressou a Lisboa, dando por concluída a sua comissão. E escreveu um livro …

O General Francisco da Costa Gomes, Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA), acompanhado pelo General António de Spínola, durante a visita à Guiné, em janeiro de 1973 (imagem do arquivo RTP)
O General Francisco da Costa Gomes, Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA), acompanhado pelo General António de Spínola, durante a visita à Guiné, em janeiro de 1973 (imagem do arquivo RTP)

Com uma escrita muito pessoal, António Matos transmite-nos a sua visão do conflito, a visão de quem está no terreno e se confronta com problemas concretos, alguns de aparente fácil solução, o que lhe trazia, naturalmente, significativa frustração. O moral, contudo, mantinha-se elevado, fruto de um ambiente de grande camaradagem e do otimismo característico da juventude. Aqui e ali, algumas notas de humor no texto, como o modo de calcular o peso da carga máxima, de 350 Kgs, na avioneta DO-27. Como no mato não havia balança, os passageiros eram contabilizados a 70 Kg por cabeça … exceto marinheiros e fuzileiros que, por na Marinha se comer melhor, lhes eram atribuídos 80 Kgs …

António Martins de Matos, então Tenente Pilav, junto a uma Dornier DO-27, na BA12, Bissalanca, 1973 (foto gentilmente cedida por Luís Graça do blog Luís Graça & Camaradas da Guiné)
António Martins de Matos, então Tenente Pilav, junto a uma Dornier DO-27, na BA12, Bissalanca, 1973 (foto gentilmente cedida por Luís Graça do blog Luís Graça & Camaradas da Guiné)

Em síntese, um livro muito interessante, que se lê com gosto, num ápice, com uma visão muito própria da guerra na Guiné, vista dos ares, que certamente interessa a quem por lá passou ou se dedica à investigação histórica.

Ao autor, ao Tenente-General António Martins de Matos, camarada e amigo de quem estas linhas escreve, sinceros parabéns por mais um excelente trabalho, merecedor de um caloroso BRAVO ZULU!

Capa e contracapa da 2ªEdição
Capa e contracapa da 2ªEdição

Em Março saiu a 2ª edição revista e aumentada com dois novos capítulos e outros dois anexos, 456 páginas.

Está à venda com um preço de capa de 24€ no site da Editora, “ O Sitio do Livro”, “Edições Exlibris” e igualmente na loja do ”Pássaro de Ferro”.

Aos interessados deixamos os contactos da editora, Av. de Berna, N.º 31 – 2.º Dt.º 1050-038 Lisboa, Telefone 211932500