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Qualquer homem que compare a sua inteligência com a de um peixe e perde está a pedi-las

 John Steinbeck

 

 “Sabes qual é o problema?”

Estávamos os dois sentados num banco de madeira verde, fossilizada por noites de luar, a muito pouca distância da água, onde o meu amigo, sentado ao meu lado, tinha a linha de uma cana de pesca mergulhada, com todo o ar de não dar sinais de vida desde o tempo da monarquia absolutista.

Foto de Michal Jarmoluk

E antes que eu tivesse tempo de dizer qualquer coisa, fechou o livro que estava a ler, e que se intitulava Como apanhar um peixe, e deu a resposta:

“É que eles”, e apontou para a água, “também leem isto.”

Olhei para a rigidez marmórea da linha, e não tive como não lhe dar razão. Talvez até eles já tivessem ao seu dispor uma edição mais atualizada do livro, do que aquela que tinha o meu companheiro de banco.

Mas de qualquer forma, o ar feliz que ele exibia não deixava margem para dúvidas sobre a tremenda deceção que iria ter no dia em que finalmente apanhasse um peixe.

As regras do jogo eram aquelas, e competia aos dois, ao homem e ao peixe, respeitá-las, para deleite de ambos.

Pensei que toda aquela bonomia era antiquíssima, da altura em que homens e peixes se tinham separado, ficando uns para sempre na água, e outros em terra, ou melhor em bancos de madeira verde.

E por ser um jogo com tanto tempo, tinha dado das mais deliciosas estórias que existem nas literaturas, desde provérbios chineses até contos na The New Yorker ou artigos na Revista Além-Mar.

Capa da revista The New Yorker Sep1965

Espiar é esperar.

Disse uma vez John Le Carré, com profundo conhecimento de causa, já não me recordo se por ele próprio, se através de George Smiley.

Que seja. Somerset Maugham, no prefácio de The British Agent, também conhecendo como as coisas se passavam, não fez por menos:

O trabalho de um agente do Serviço Secreto é, de um modo geral, extremamente monótono.

Mas verdadeiramente, pescar é esperar.

No seu estado mais puro, o da tranquilidade, a que os crentes chamam serenidade.

Ashenden Sommerset Maugham

Que não é o mesmo que a estratégia com que o Marechal Kutuzov esperou por Napoleão nos confins da Rússia, tão longe de Paris, até os franceses não apenas pararem de cansaço, mas começarem a comer os cavalos que lhes iam permitir regressar.

Nem a ansiedade dos camponeses com a chuva que deve cair entre o plantio e a colheita.

É a serenidade de não ter nada mais importante para fazer, do que contar as estrelas do céu numa noite limpa, ou observar os cedros a crescer.

E é um jogo. Com as regras aceites por quem veio do mesmo lugar, há milhões de milhões de anos.

Quem observa o bucolismo da linha mergulhada na água, sem oscilar mais do que as pirâmides de Gizé, ou os contrafortes dos Himalaias, assim pela eternidade fora, tem a certeza absoluta de que naquele momento suspenso, homem e peixe igualam-se, na partilha de uma expectativa comum.

Foto de István Mihály

A linha vibrou por instantes, parou, voltou a vibrar, e parou em definitivo. Pelo sorriso do meu amigo, pressenti que aquilo devia ser um código qualquer, e que do outro lado devia estar um peixe conhecido.

Apreciei aquela cumplicidade, mas não deixei de lhe fazer notar que a pesca podia ser uma das formas de melancolia, tanto quanto mergulhar madalenas em chá de tília, à la recherche du temps perdu.

O meu amigo tranquilizou-me. O Papa Gregório I, no final do século VI, tinha passado os oito pecados capitais a sete, com o perdão da melancolia.

A cana voltou a vibrar, mas agora nem lhe ligou, entretido a contar o caso de um faroleiro que não conseguia pregar olho a noite inteira por causa de uma luz muito intensa.

Puxei de uma bolsa de camurça de dentro do bolso interior do casaco, e com a ponta direita dos dedos em forma de pinça, retirei de dentro dela uma boa porção de tabaco turco, e enchi o fornilho de um cachimbo que tirei do bolso de fora do casaco.

Calquei o tabaco com o polegar direito, e com a tampa da minha caneta de tinta permanente, acabei a compactação. Depois risquei um fósforo, e cheguei a chama ao topo do fornilho, o que provocou quase de imediato uma nuvem de fumo aromático, e em mim uma sensação maravilhosa, de estar apto a resolver os problemas do universo, e o desejo irreprimível de que a próxima estória do meu amigo começasse por, no início era o verbo…

Mas não. Agora falava sobre o lançamento de um submarino à água, em que este tinha ficado irritantemente ao de cimo de água, a flutuar.

A cana agitava-se num frenesim browniano, como se na sua extremidade, agarrados ao anzol estivessem todos os peixes, de todos os cardumes, de todos os mares.

Enquanto o meu amigo discorria sobre a passagem do tempo, e sobre a forma de a atenuar, com um relógio que marcasse os dias, os anos e os séculos.

A linha da cana voltou a apaziguar-se, e agora seria novamente possível praticar funambulismo em cima dela.

Puxei mais umas tantas fumaradas do cachimbo, cada uma mais agradável do que a outra, enquanto aguardava pela minha estória preferida.

É sobre um letreiro que ele conhece, localizado numa das reentrâncias do recorte da costa de Cascais, e onde se pode ler o aviso:

É proibido pescar

Nada de mais, e igualzinho a tantos outros escritos nas mais diversas línguas faladas nas zonas ribeirinhas do mundo, não fosse este ter escrito em baixo:

Os peixes

 

proibido pescar Os PEIXES