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Vincent van Gogh

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Não apenas sabemos que o impressionismo nasceu no mar, como sabemos hoje o momento exato.

Treze de novembro de mil oitocentos e setenta e dois, cerca das sete e trinta e cinco da manhã, no Hotel de L’Amirauté, sobre o Le Havre.

Nesta altura, Claude Monet abriu a janela do seu quarto debruçado sobre a grande doca do porto, a uns onze metros de altura do nível do mar, terá aspirado a aragem suave e, pouco depois, sentado em frente a uma tela vazia de 48 x 63 cm, começado a pintar.

Auto-retrato com boina, óleo sobre tela, Claude Monet (1890)
Auto-retrato com boina, óleo sobre tela, Claude Monet (1890)

À sua frente estendem-se pormenores de qualquer vida portuária, e bastante à maneira do que William Turner já tinha retratado.

O fumo das chaminés, que exposto ao vento de Leste desliza da esquerda para a direita, um pequeno bote com a mancha de dois homens, e a entrada dos transatlânticos aberta, mais silhuetas de guindastes e equipamentos portuários, e depois mais nada.

Ou seja, tudo. O sol.

Aquele sol incrível, aquela bola vermelha, mais para cima do que para baixo, mais para a direita do que para a esquerda, aquele sol estava a nascer ali para todos nós.

Concluída a pintura não muito tempo depois, Monet não regista outra coisa para além da sua assinatura na base esquerda da tela. E depois um 72, que mesmo assim não foi suficiente para que um dos maiores especialistas mundiais sobre o quadro o tivesse datado da Primavera de 1873.

Pintado, o quadro não despertou qualquer interesse no meio artístico francês (leia-se parisiense) onde terá sido visto a primeira vez no estúdio do fotógrafo Nadar, no número 35 do boulevard des Capucines, entre cerca de centena e meia de quadros, numa exposição aberta ao público em 15 de abril de 1874, que para além daquele, e de compradores, precisava de um título.

O Estúdio Nadar, no Boulevard des Capucines, 35, Paris, 1860
O Estúdio Nadar, no Boulevard des Capucines, 35, Paris, 1860

Naquela altura, já desde há algum tempo que quadros de pintores chamados Auguste Renoir, Éduard Manet, Edgar Degas, Paul Cézanne, Camille Pissarro, eram expostos em galerias alternativas, como a Société anonyme coopérative d’artists, e recusados nos Salões oficiais, aos quais se juntariam em breve dois outros pintores que davam pelo nome de Paul Gauguin e Vincent van Gogh, telas onde os familiares, os burgueses, e os operários e as costureiras, eram pintados com luz, como os personagens bíblicos e institucionais da escola flamenga tinham sido pintados com sombra.

Fortemente ligada à escola literária do realismo e do naturalismo, numa ânsia de “peindre la nature et la vie dans une large réalité” aquela horda de deserdados da fortuna crítica e monetária, ansiava por um nome, uma designação para a pintura que faziam.

Sem imaginação para outro, o influente crítico Louis Leroy, que nunca teria grande simpatia pelo movimento, em cima da abertura da exposição, não deixou escapar a estranheza do título que Monet atribuiu ao seu quadro pintado no Le Havre:

Impression.

Estava encontrado o nome que ia modificar a arte para sempre.

Exposition des Impressionnistes.

E para o quadro iria recair o título, com o qual ainda hoje pode ser visto no Museu Marmottan:

Impression, soleil levant

Impressão, nascer do sol.

Impressão, nascer do Sol, óleo sobre tela, 1872, Claude Monet (Museu Marmottan)
Impressão, nascer do Sol, óleo sobre tela, 1872, Claude Monet (Museu Marmottan)

Como geralmente acontece em questões de progenitura de estilos artísticos, com mais do que uma versão sobre um acontecimento inicial, também existe a versão segundo a qual o título impressionista, apesar de continuar a vir de Monet e da sua impressão: amanhecer, teria sido atribuído por Edmond Renoir, irmão de Auguste, e encarregado da elaboração do catálogo da célebre exposição.

Não muito mais tarde, Ramalho Ortigão conhece pessoalmente Éduard Manet, por quem nutre grande admiração e não hesita em classificá-lo como o chefe afamado da escola dos impressionistas, e sobre esta, não deixa as coisas por menos: tem já um brilhante papel na pintura moderna e está destinada a ser uma poderosa encaminhadora da arte para o futuro.

Em 1888, quando Eça de Queiroz é nomeado cônsul em Paris, provavelmente o seu maior objetivo quando ingressou na carreira dezasseis anos antes, vai muito a tempo de usufruir do impressionismo e conviver de perto com os seus grandes nomes, mas estranhamente pouco ou nada se manifesta sobre o assunto, e os mais apressados ou menos atentos, entenderam que não foi sensível àquela pintura.

Prefere flanar entre os jardins e os boulevards, frequentar os alfarrabistas da margem esquerda onde adquire livros antigos sobre a Pátria, passar os serões com os amigos brasileiros, e exilar-se na residência do consulado, para escrever as maravilhosas páginas sobre a serraria de Portugal.

Eça de Queiroz com Tomás de Sousa Rosa e o Conde da Caparica no jardim do consulado em Neuilly
Eça de Queiroz com Tomás de Sousa Rosa e o Conde da Caparica no jardim do consulado em Neuilly

Entretanto a preciosidade que Impression, soleil levant é, e a sua importância como iniciadora de um dos movimentos artísticos mais extraordinários da arte universal, fizeram atrair sobre o quadro uma merecida atenção e uma série de estudos, destinado a saber absolutamente tudo sobre ele, e mais uma coisa: o dia em que aquilo tinha acontecido.

Para trás ficava toda uma áurea de mistério sobre a atmosfera do quadro. Inclusivamente a dúvida que passou a assistir aos que se maravilhavam com aquela representação. O sol estava a nascer ou a pôr-se.? Dúvida que naturalmente não resistia a uma deslocação ao Le Havre, e à observação da rota da grande estrela na abóbada celeste.

Estudos de infravermelhos permitiram detetar que o quadro foi pintado de uma só vez e em pincelada rápida, como aliás seria característico de Monet, que se tinha iniciado na pintura através da caricatura, mas igualmente que a data de 1872, não era original, mas colocada à posteriori, o que validava a possibilidade de o quadro poder ser mesmo de 1873.

A análise rigorosa e detalhada do cenário, feita comparativamente com toda a iconografia possível localizar, onde por exemplo é possível identificar as marés em que a saída do porto aparece aberta, tabelas de marés, registo de efemérides, relatos avulsos de marítimos, livros de navegação, manifestos de cargas etc., permitiram canalizar a data da pintura para cinco possibilidades.

A partir daqui entrou em cena Donald W.Olson, engenheiro e astrofísico norte-americano, que já se tinha notabilizado em identificar as datas e horas de pinturas que constituem o nosso imaginário, como Casa branca na noite de Van Gogh, e Noite estrelada de Edward Munch, e sobretudo, outra pintura de Claude Monet, também envolta na tonalidade solar, pertencente a um conjunto pintado na vila piscatória de Étretat, na Normândia.

Casa Branca à Noite, Auvers-sur-Oise, óleo sobre tela Vincent Van Gogh, Junho de 1890 Museu Hermitage - São Petersburgo e Noite Estrelada (1922-1924) Edward Munch, a cidade de Oslo vista da casa do pintor.
Casa Branca à Noite, Auvers-sur-Oise, óleo sobre tela Vincent Van Gogh, Junho de 1890 Museu Hermitage – São Petersburgo e Noite Estrelada (1922-1924) Edward Munch, a cidade de Oslo vista da casa do pintor.

Séries de observações meteorológicas apenas disponíveis na web, cálculos trigonométricos e algoritmos específicos, e a colaboração dos astrofísicos da Universidade do Texas, permitiram recentemente acabar com todas as dúvidas.

Impressão, nascer do sol, foi pintado por Claude Monet, no Le Havre, mais ao menos às sete e trinta e cinco da manhã do dia treze de novembro de mil oitocentos e setenta e dois. Nascia o impressionismo.

E aquele sol, está mesmo a nascer à nossa frente, e para sempre, oferecendo-nos até hoje um prazer intenso feito de momentos de rara beleza, como esta passagem de A cidade e as Serras.

Para além, outros socalcos, de um verde-pálido de reseda, com oliveiras apoucadas pela amplidão dos montes, subiam até outras penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina abundância do azul.

Impressionismo puro.