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O processo de transição digital, ainda que nos seus primeiros passos, caminha a grande velocidade e parece levar consigo uma motivação coletiva

O processo de transição digital entrou no nosso quotidiano já há algum tempo e praticamente sem nos apercebermos acabamos por realizar cada vez mais tarefas e resolver assuntos a partir do nosso telemóvel, seja por via de redes sociais, na ligação com amigos e familiares, na planificação de momentos de lazer, em termos profissionais, na saúde, na interação com Estado, assim como em outros inúmeros aspetos. Temos a perceção que tudo comunica, ou pode comunicar com tudo, de maneira cada vez mais fácil e rápida que muitas vezes até já nos parece natural e óbvia. Efetivamente, cada vez são mais os equipamentos a comunicar e a integrar-se entre si, partilhando dados que são rapidamente comunicados e processados transformando-se em informação, ou serviços que podem ser usados pelo cidadão, empresas ou organismos do Estado.

O processo de transição digital, ainda que nos seus primeiros passos, caminha a grande velocidade e parece levar consigo uma motivação coletiva, talvez pela perceção de proximidade que transmite, pela simplicidade, transparência e mesmo sustentabilidade ambiental. Portugal, um país de tradições, não deixa de ser inovador e aberto à mudança, características ideais para que qualquer processo de transformação seja convertido num fator de competitividade e com consequente geração de valor.

Ericeira e o Mar português (imagem João Gonçalves)
Ericeira e o Mar português (imagem João Gonçalves)

Centremo-nos num bem que por si só já é um dos principais fatores de diferenciação e competitividade de Portugal, o nosso mar. Olhando para o mapa mundo, tal como habitualmente nos é apresentado, Portugal tem uma posição central. De facto, numa perspetiva atlântica, andando para sul ou para norte, para este ou oeste, é difícil não passar por Portugal. Esta particularidade, definitivamente, tem de nos proporcionar um salto significativo na nossa competitividade e inerente geração de valor, podendo a transformação digital ter aqui um relevante efeito de alavanca. Mas em que medida a transformação digital associada ao mar pode proporcionar valor a Portugal?

Consideremos alguns factos:

  • As rotas comerciais no Atlântico, ainda que conjunturalmente estejamos a assistir a uma diminuição do tráfego marítimo mundial, irão necessariamente manter-se, e com uma possível tendência para crescer no futuro;
  • A riqueza em matérias cada vez mais procuradas nos fundos marinhos, em particular na zona dos Açores e Madeira, vai aumentar significativamente o tráfego associado a projetos científicos e de exploração industrial, potenciado também pela extensão da plataforma continental;
  • O aumento das atividades turísticas ligadas ao mar, como observação de cetáceos e mergulho, suscita cada vez mais procura;
  • As atividades piscatórias exigem cada vez mais uma maior eficiência;
  • O aumento das atividades piscatórias, turísticas, científicas ou industriais implicam também um aumento das atividades de apoio, monitorização e vigilância, que por si já contribuem para um maior tráfego marítimo;

A transição para o digital de todo este ecossistema, passa por:

  • Reforçar e aplicar novas tecnologias de comunicação entre equipamentos e sistemas centrais de monitorização e controlo;
  • Aplicar vários tipos de equipamentos e sensores, operacionais, de segurança, científicos, etc., com capacidade de transmitir dados. Em alguns casos, inclusive o registo de grandes volumes de som ou imagem;
  • O recurso a robótica de última geração;
  • A utilização de complexos sistemas informáticos que fazem uso de algoritmos de inteligência artificial;
  • O tratamento de grandes volumes de dados para apoio a tomada de decisão;
A Transição Digital no Controlo de Tráfego Marítimo 24
Vista aérea dum navio porta-contentores competamente carregado a navegar a Toda a Força Avante, (D.R.)

Com a oportunidade geográfica que Portugal beneficia, temos de ter capacidade para poder fazer do nosso mar um recurso seguro, controlado, monitorizado e acima de tudo sustentável de forma económica e ambiental.

Estes pontos são o acelerador para que possamos verificar um aumento significativo de todas as atividades marítimas. Com a oportunidade geográfica que Portugal beneficia, temos de ter capacidade para poder fazer do nosso mar um recurso seguro, controlado, monitorizado e acima de tudo sustentável de forma económica e ambiental. É aqui que entra a tecnologia para nos ajudar a monitorizar, em tempo real, estes cenários de tráfego marítimo. A tendência para este crescimento de tráfego e a própria extensão da plataforma continental obriga ao reforço da comunicação dos vários equipamentos, que não só contribuem para maior eficiência do controlo e monitorização, mas também para a segurança das infraestruturas marítimas e melhor rentabilização económica e ambiental.

Para este controlo, o VTS — sistema de controlo de tráfego marítimo — é a bandeira que garante a segurança das nossas águas. Isto para que possamos registar e diferenciar os navios e embarcações que circulam por lazer, na observação de golfinhos ou baleias, as que se encontram em explorações científicas, as que contribuem para a nossa economia, como as de pesca; e monitoriza as embarcações estrangeiras que atravessam as águas portuguesas.

A torre do Centro de Controlo de Tráfego Marítimo do Porto de Lisboa, em Algés, é um edifício com 38 metros de altura, Inaugurada em 2001, foi construída segundo o projeto do arquiteto Gonçalo Byrne, estando dotada das mais avançadas tecnologias, uma transição digital que lhe permite orientar a navegação de embarcações até uma distância de 16,5 milhas marítimas. (imagem Luís Miguel Correia)
A torre do Centro de Controlo de Tráfego Marítimo do Porto de Lisboa, em Algés, é um edifício com 38 metros de altura, Inaugurada em 2001, foi construída segundo o projeto do arquiteto Gonçalo Byrne, estando dotada das mais avançadas tecnologias, que lhe permitem orientar a navegação de embarcações até uma distância de 16,5 milhas marítimas. (imagem Luís Miguel Correia)

Esta capacidade, necessariamente assente numa plataforma informática que atua como um cérebro de todo o sistema, desenvolvida recorrendo às melhores praticas de produção de software para sistemas críticos e cobrindo todas as funcionalidades de um VTS, tem a capacidade de integrar vários equipamentos, como radares, câmaras electro óticas, estações AIS, RDF, comunicações rádio com integração de voz, GMDSS, estações meteorológicas e hidrológicas, entre muitos outros meios como drones, equipamentos subaquáticos e de investigação cientifica. Esta plataforma informática central, integradora de todos os subsistemas e equipamentos, deverá proporcionar aos operadores uma visão clara e concisa do cenário marítimo agrupando e integrando toda a informação dos sensores num interface homem-máquina, de utilização/operação fácil e intuitiva, com as ferramentas automáticas de seguimento de alvos, de ajuda à navegação e geração de alertas num cenário único e em tempo real.

Este sistema deverá ser capaz de proporcionar vários tipos de serviço e informação relevante para uma navegação segura, como dados hidro e meteo assim como alertar para rotas próximas de outros navios e embarcações na zona VTS. O serviço de organização de tráfego deverá ser assegurado prevendo distâncias de separação, disposições relativas a tempos de bloqueio, limites de velocidade e outro tipo de dados e informação relativas à organização do tráfego. O serviço de assessoria e assistência à navegação deverá ser um suporte ativo no apoio à tomada de decisão, não apenas transmitindo informação, mas também supervisionando os respetivos resultados. Este serviço deve assentar em avisos recolhidos por sensores e equipamentos relativos a localização de tráfego, rotas e velocidade de navios e embarcações assim como poderá efetuar advertências especificas. Ainda relevante é a capacidade de simulação deste tipo de sistemas, criando cenários que servem de apoio na formação de operadores para determinadas contingências ou na planificação de operações.

Em resumo, a fusão de todos os dados é convertida em informação para assim proporcionar o cenário operacional de tráfego integrado e em tempo real, tudo isto num eficaz interface homem-máquina e cumprindo com as recomendações das configurações Basic, Standard e Advanced, tanto da IMO como da IALA.

(artigo publicado na Edição impressa nº1017 set/out de 2020)