Património Cultural Marítimo

O naufrágio do TIBER, 21 de Fevereiro de 1847

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Razões para uma pesquisa histórica

Faz já vários anos, que encontrei um livro publicado em Inglaterra, escrito por alguém cujo nome não recordo, com relatos de tesouros escondidos em destroços de navios, espalhados por vários locais à volta do globo. Entre os diversos casos citados, lembro-me de numa primeira situação, ter encontrado informações relativas à possibilidade de ainda existir uma grande quantidade de barras de ouro, uma considerável quantia em dinheiro e joias de grande valor, que poderiam estar a ser transportadas nos cofres do paquete TITANIC. Confesso que devido à minha pouca apetência enquanto pesquisador de naufrágios, não me deixou impressionado, até porque para chegar aos destroços do navio, teria de reunir um pecúlio exageradamente exorbitante, que anularia qualquer hipótese de competir com o famoso explorador americano Dr. Robert Ballard, que com todo o mérito teve a capacidade de se antecipar, mostrando ao mundo imagens históricas do colosso, afundado a impressionante profundidade.

Robert Ballard e o seu TITANIC, durante uma Ted Talk, em fereveiro de 2008 ( imagem Erik Charlton via Flickr
Robert Ballard e o seu TITANIC, durante uma Ted Talk, em fereveiro de 2008 ( imagem Erik Charlton via Flickr)

Sem melhores argumentos, decidi optar por uma segunda situação, relacionada com o naufrágio de um outro vapor, também inglês que, muito embora de menores dimensões, teria nos seus porões um pequeno tesouro, ainda por explorar, com a vantagem de se encontrar no litoral de Vila do Conde. Atraído pela proximidade, decidi-me partir à descoberta do navio, que no livro surgia referenciado como tendo sido baptizado TIBER.

Não posso negar, que o resultado às primeiras diligências, mostraram resultados decepcionantes. Afinal não era segredo e não existia tesouro nenhum! Consegui inclusivamente o acesso à correspondência enviada por um grupo de mergulhadores nacionais, a solicitar autorização à Marinha para efectuarem mergulhos nos destroços, que foram obviamente recusados. Mais decepcionante ainda, foi ter tido conhecimento, que mesmo sem autorização oficial, alguém (logicamente não identificado), tinha realizado mergulhos no vapor, que se encontra afundado próximo à costa, de lá retirando dois canhões, que à falta de melhor lugar, foram colocados em frente à porta de acesso do Clube Naval Povoense. Entretanto, como os tais canhões caíram lá de forma abusiva, soubemos terem já sido retirados, pelo que se espera estejam em poder da autoridade marítima, em local não divulgado.

O Paddle Steamer HER MAJESTY, óleo sobre tela de John Livingston, 1846; (Lancashire County Museum Service)
Um Vapor de Rodas semelhante ao TIBER, (Paddle Steamer) HER MAJESTY, óleo sobre tela de John Livingston, 1846; (Lancashire County Museum Service)

Em função do atrás exposto, conclui-se que não havendo tesouro, pelo menos restava o navio, daí que no meu parecer justificava pelo menos averiguar outros elementos disponíveis, sabendo de antemão da existência de mais canhões a bordo, que mais ninguém ousou descarregar ou dar-lhe uma desnecessária visibilidade.

Eis, portanto, o que me foi dado constatar, apresentando inicialmente o resumo histórico do navio, juntando igualmente a narração do naufrágio, assinada por um dos náufragos, que se encontra publicada nos cadernos das ligações postais com a barra do Porto, como segue:

Características do navio

Armador: Peninsular & Oriental Steam Navigation Co., Ltd., Londres, 1846-1847
Construtor: Caird & Co., Greenock, Escócia, 8 de Agosto de 1846
Arqueação: Tab 764,00 tons – Tal 466,00 tons
Dimensões: Ff 60,10 mts – Pp 56,00 mts – Boca 8,14 mts – Pontal 5,24 mts
Propulsão: Caird & Co., 1846 – 1:Pv – 280 Ihp – Velocidade 9 m/h

Desenho duma máquina a vapor da Caird&Co Ltd, de 1841
Desenho duma máquina a vapor da Caird & Co Ltd, de 1841

Este navio construído em ferro por cerca de 28.600 libras, inicialmente suposto chamar-se CEYLON, permite lograr através das datas em que prestou serviço, estar a realizar as viagens inaugurais. Por esse motivo a visualização da silhueta do vapor através do desenho apresentado, é logicamente credível, por resultar ter sido efectuada por quem conheceu o trabalho desenvolvido pelos respectivos construtores.

Além de operar no transporte de passageiros e mercadorias, esteve igualmente colocado no serviço postal, com carreira estabelecida entre os portos de Southampton, Vigo, Porto, Lisboa, Cadiz, Gibraltar, utilizando os mesmos portos de escala na viagem de regresso a Inglaterra. Porém, é de admitir que a primeira viagem teve como destino uma viagem a Itália.

Carta náutica com a derrota do PS TIBER, na fatídica viagem de 1847.
Carta náutica com a derrota do PS TIBER, na fatídica viagem de 1847.

Quanto aos canhões referidos previamente, que se encontravam a bordo, foram carregados durante a escala do navio em Gibraltar, porque à época estavam considerados obsoletos, justificando a sua devolução ao país de origem.

O naufrágio

No dia 20 de Fevereiro de 1847, às oito horas e meia da manhã, saiu o vapor TIBER de Lisboa, navegando com tempo favorável até às três horas da manhã do dia 21. Achando-se então defronte da barra do Porto, pairou fazendo os costumados sinais com tiros de peça, a fim de lhe ser enviada a mala da correspondência de Londres e mais terras do Norte. O nevoeiro e a cerração eram tão densos, que à equipagem não foi possível orientar-se pela terra e, deste modo, assim perderam o verdadeiro rumo, que o vapor devia seguir.

Barra do Douro no Século XIX, (gravura inglesa de autor desconhecido)
Barra do Douro no Século XIX, (gravura inglesa de autor desconhecido)

Seria hora e meia da tarde do mesmo dia 21, bateu o navio num rochedo defronte da praia de Vila Chã, meia légua ao Sul de Vila do Conde. Todas as pessoas, que seriam duzentas e trinta, entre tripulação e passageiros, ficaram assustadas com tal sucesso; e muito particularmente quando logo em seguida o navio bateu segunda vez, sem poder continuar a navegar. Então rompeu de todos os lados um alarido geral, misturado com aterradoras exclamações.

Alguém lançou logo ao mar alguns escaleres, que imediatamente se encheram de gente; e, ou fosse pela violência das ondas, ou por falta do preciso equipamento, estes escaleres despedaçaram-se logo contra o costado do vapor, salvando-se das muitas pessoas já embarcadas três, que puderam agarrar-se a um cabo estendido do vapor. A tripulação conhecendo a inutilidade do recurso, não lançou ao mar as lanchas que ainda lhe restavam.

O único desenho conhecido do PS TIBER (provavelmente publicado nalgum anúncio de jornal da época)
O único desenho conhecido do PS TIBER, de 1846, (provavelmente publicado nalgum anúncio de jornal da época)

Enquanto a tripulação fazia os últimos esforços para salvar as vidas, as ondas passavam por cima da coberta de um a outro bordo, arrastando ao mar tudo quanto não estava bem seguro; – a caldeira e o fogão ameaçaram um incêndio, que foi logo apagado pela água que entrou pelo fundo do navio; – a mastreação desarvorou, matando algumas pessoas na queda. A tripulação completamente desanimada, tocou por final a sineta de bordo, anunciando que já nenhuma esperança podia haver.

Já todos se achavam resignados à sorte que encaravam, achando-se muitos em muda expectativa esperando os últimos momentos e, outros de joelhos com as mãos erguidas pedindo ao céu a salvação das suas almas. Neste momento apareceu ao longe uma lancha de pesca do sítio de Vila Chã e, então em todos raiou a esperança de vida, gritando salvação, salvação! Os pescadores sem muito se aproximarem, reconheceram o estado do vapor, acenando para ele, retirando-se de seguida. A ansiedade foi horrorosa neste momento, pela incerteza de qual seria o procedimento da lancha; porém passado pouco tempo todos lhe tributaram sinceros votos de agradecimento, reconhecendo que trazia para o socorro nove ou dez barcos, os quais se esforçaram por salvar os que ainda se achavam vivos, transportando-os do vapor naufragado ao sítio da praia de Vila Chã.

Praia de Vila Chã nos dias de hoje (imagem Reinaldo Delgado)
Praia de Vila Chã nos dias de hoje (imagem Reinaldo Delgado)

Julga-se que as pessoas mortas nos diferentes sucessos deste naufrágio seriam trinta a quarenta; as que escaparam não puderam salvar as suas bagagens; e muitos mesmo ficaram apenas vestidos com camisa e ceroulas.

Alguns militares, pela diferença de opinião pública, depois de estarem em terra, correram o perigo de ser presos pelas autoridades pertencentes ao Porto.

Texto assinado por um náufrago, Valença, 28 de Fevereiro de 1847. (Diário do Governo, Nº 55 de 5 de Março de 1847)

P.S.- Neste relato do naufrágio, que se supõe verdadeiro, confirma as datas, o rumo e a derrota traçada pelo navio, desde o porto de Lisboa, com a indicação precisa do processo utilizado pelos navios do serviço postal, seguindo com destino a Londres. No entanto, subsistiam dúvidas em relação à possibilidade de ter existido um razoável número de vítimas. Numa nota recolhida posteriormente à notícia do naufrágio, foi obtida a informação que o navio naufragou no curto espaço de 20 minutos. Faz também constar, que as lanchas de pesca de Vila Chã, resgataram com vida quase todos os passageiros e tripulantes, excepto o cozinheiro de bordo, um oficial do exército espanhol, uma senhora de nacionalidade portuguesa e um seu filho menor, e ainda alguns passageiros que viajavam no convés do vapor.

HMS BLOODHOUND e o HMS TEASER (imagem via historicalupdate.blogspot.com)
HMS BLOODHOUND e o HMS TEASER, frente a Lagos, Nigéria, durante a repressão do tráfico de escravos português, francês e espanhol. O HMS Teaser, à direita, foi o primeiro navio a vapor, da Royal Navy movido a hélice. (imagem via historicalupdate.blogspot.com)

Algumas malas do correio postal foram recuperadas e transportadas para Inglaterra, pelo navio da marinha inglesa HMS BLOODHOUND, que foi de imediato enviado para a área do sinistro, porém, uma pequena parcela da carga e diversa bagagem que, entretanto, deu à costa, foi saqueada pelos habitantes locais.

Durantes os meses seguintes, foi por diversas vezes sugerido o total salvamento do navio, que nunca aconteceu, sendo considerada a perda construtiva a partir do mês de Agosto do mesmo ano de 1847. O vapor estava no seguro pelo valor de 20.000 libras.

Um outro Vapor de rodar de três mastros, o Paddle steamer GEORGE LAW (imagem Smithsonian Institute)
Um modelo de outro Vapor de Rodas de três mastros, o Paddle Steamer GEORGE LAW. Construído em Nova Iorque, era muito maior que o TIBER (87,4m e 2.141 tons, mas com o mesmo aspeto exterior.

 

Reinaldo Delgado

Autor do blog "Navios e Navegadores", é um amante do mar e dos navios, que fotografa com regularidade. Investigador sobre história marítima (marinhas de guerra e de comércio), é colaborador da Revista de Marinha há vários anos, escrevendo principalmente sobre temas relacionados com o norte do país. Durante a sua vida profissional exerceu funções na agência Sofrena - Sociedade de Afretamentos e Navegação, Lda. de Matosinhos, hoje integrada no grupo E.T.E. - Navex

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