Portos

Transbordo internacional de pescado no Porto Grande

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O transbordo de pescado no Porto Grande do Mindelo, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, é um dos segmentos do mercado portuário que tem vindo a registar um contínuo crescimento e tem sido uma importante fonte de rendimento para os trabalhadores portuários, igualmente para a comunidade portuária, com impacto significativo na economia da ilha e do país.

Em 2016, o Porto Grande registou cerca de 22 mil toneladas de pescado movimentado, e graças à capacidade atrativa da ENAPOR, empresa que administra os Portos de Cabo Verde, em 2019 o registo mais que dobrou, foi de 45 mil toneladas.

Esta componente do tráfego tem um peso muito significativo nos rendimentos da empresa, da ENAPOR e dos trabalhadores, quer efetivos quer ocasionais, pelo volume de trabalho que gera. Em média, num navio de pesca trabalham cerca de 60 trabalhadores, sendo que já houve picos de cerca de 500 trabalhadores num só dia! Entre abril e outubro, é visível a afluência de centenas de trabalhadores ocasionais ao Porto Grande que recorrem ao trabalho nesta operação na perspetiva de garantir o seu sustento.

Embora estejamos num ano atípico, ainda assim, o início da pandemia da COVID 19 impactou positivamente no transbordo de pescado no Porto Grande, uma vez que se registou, entre janeiro e abril, um aumento de cerca de 15% face ao período homólogo de 2019. Este aumento deveu-se à incidência da pandemia nos países dos portos concorrentes, como os de Abidjan e Dakar, que obrigou à suspensão de serviços, originando o aumento da procura pelos Portos de Cabo Verde.

Note-se que em 2019, o movimento de pescado no Porto Grande gerou receitas diretas superiores a um milhão de euros e que esta atividade constituiu uma das principais fontes de rendimento dos trabalhadores portuários.

Contentores com atum congelado e contentores vazios, caracterizam a azáfama das operações portuárias de transbordo de pescado. (imagem ENAPOR)
Contentores com atum congelado e contentores vazios, caracterizam a azáfama das operações portuárias de transbordo de pescado. (imagem ENAPOR)

Uma cadeia de atividades que assegura um contínuo crescimento

O transbordo internacional de pescado no Porto Grande envolve vários sectores de atividade, que englobam operadores e empresas ligadas à área de transformação e comercialização de pescado, e ainda a manutenção, que garante a prestação de serviços às unidades das frotas de pesca que operam na região do Atlântico centro-leste.

Esta atividade é acompanhada pela Inspeção das Pescas, em concertação com as Autoridades Portuárias, Marítimas, Guarda Costeira e Alfandegas da República de Cabo Verde.

Para servir esta cadeia de atividade, que envolve o transbordo de pescado, destacamos a logística de contentorização disponível no Porto Grande, que garante operações de forma célere e segura, e o entreposto frigorífico, que opera na área da armazenagem, congelamento, processamento de pescado e venda de gelo, localizado no Porto Grande e administrado pela firma ATUNLO, empresa espanhola.

Troncos de espadarte congelados movimentados por uma grua portuária (imagem ENAPOR)
Troncos de espadarte congelados movimentados por uma grua portuária (imagem ENAPOR)

A ATUNLO opera em Cabo Verde desde 2015, e o seu crescimento tem sido contínuo, registando em 2019 um incremento importante nas suas atividades com a movimentação de exportação de 578 TEU´s, representado 14.606 tons de pescado.

O Complexo de pesca de Cova d’Inglesa, dotado de dependências e instalações adequadas ao recebimento, manipulação, refrigeração, distribuição e comércio do pescado, desempenha também um papel de destaque na cadeia de operações do transbordo de pescado, disponibilizando serviços de energia, água, combustível, gelo e armazenagem. O complexo tem tido um papel importante nas atividades logísticas e de abastecimento de pescado destinado ao mercado nacional e às indústrias transformadoras e exportadoras, sediadas na cidade de Mindelo.

Este segmento do mercado, necessário e desejável para o desenvolvimento da economia marítima, traz valências para a atividade portuária, pois promove não só a carga de importação, mas também de exportação, proporcionando empregos e determinando o desenvolvimento do sector e da própria ilha de São Vicente.

Porto Grande, na ilha de São Vicente (imagem ENAPORT)
Porto Grande, na ilha de São Vicente (imagem ENAPORT)

A aposta na Pesca

O crescente consumo de produtos de pesca no mercado internacional é uma oportunidade para o desenvolvimento da pesca e atividades associadas em São Vicente. A aposta da Enapor no transbordo de pescado, mas também no desenvolvimento de numa indústria pesqueira em São Vicente, visa responder a este objetivo.

A Ilha de São Vicente dispõe de boa capacidade de serviços para a pesca. Atualmente existem três entrepostos frigoríficos na ilha, o maior dos quais está localizado no Porto Grande, com uma capacidade de armazenamento de 3.000 toneladas, operado pela já referida empresa ATUNLO.

As capacidades dos outros dois entrepostos são, respetivamente de 1.000 e 300 toneladas, os dois operados pela firma “Frescomar”. Ademais, o terminal de pesca de pequena escala, a que está anexa a infraestrutura de refrigeração de 300 toneladas, pode fornecer água doce, gelo, combustíveis e outros serviços de reabastecimento às embarcações de pesca.

No entanto, para a construção de uma base de serviços competitiva para o sector da pesca, é importante promover a construção de terminais especializados. É ainda imprescindível que se invista na melhoria da capacidade de manutenção das embarcações de pesca, na capacidade de fornecimento de combustíveis e de produtos de consumo diário como iscas, gelo e água. Também será necessário melhorar os processos de inspeção da pesca e dos respetivos materiais e equipamentos, e o desenvolvimento da logística da cadeia de frio, a construção de uma capacidade de ultracongelação e armazenagem de ultracongelados. Por fim, investir nos equipamentos de transporte, contentores frigoríficos e embarcações de pesca com frigorífico.

Alcídio Nascimento Lopes

Engenheiro, licenciado em Operação e Economia dos Transportes e Comunicações. Presidente do C. A. da ENAPOR, SA, Portos de Cabo Verde.

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