Crónicas

Um peru no meio do Atlântico

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Pouco passava das oito daquela noite, quando um peru — que nem sequer era dos grandes — foi colocado no centro de uma mesa, ao redor da qual se sentavam vinte e uma pessoas.

O Comandante olhou para o peru, e depois, um por um, para toda a sua oficialidade, à exceção do oficial de quarto que tinha ficado a bordo.

Era por demais evidente que todos pretendiam que se portasse à altura. E foi o que fez.

As senhoras concedem-me autorização para que o meu imediato utilize o telégrafo da estação astronómica, para enviar uma mensagem urgente ao nosso navio?

Aquela ilha belíssima fazia parte de um grupo de outras, eriçadas no horizonte circular, líquido e perpétuo do Atlântico, entre os paralelos 36º e 40º Norte, e os meridianos 24º e 32º Oeste, e tinha-se formado há milhões de anos atrás, mas mais recentemente tinha aprisionado no seu quotidiano desprovido de arestas, uma população rarefeita e satisfeita por as coisas serem assim, e de onde emergia o exotismo sereno das duas irmãs.

Ambas colecionavam estrelas. Maria Luísa do céu, e Maria Teresa do mar.

Restos da grandeza de antepassados ilustres e uma inteligência brilhante, tinha permitido que estudassem na ilha, até à idade de prestarem provas e serem admitidas as duas na Escola Politécnica. Maria Luísa, em matemática, o que lhe dava acesso ao observatório astronómico, no início do jardim espesso que escorregava luxuriante em tons de verdes múltiplos até quase ao empedrado do passeio da Avenida da Liberdade, e Maria Teresa, em geologia, aquilo que estava mais próximo da origem das estrelas do mar, e que lhe permitia frequentar o Aquário Vasco da Gama, utilizando um elétrico, que passava no Largo do Rato, e deambulava pelo casario da cidade, até uma linha desafogada que a deixava no Dafundo.

Por deferência de uma tia abadessa, ficaram a viver no discreto convento que existe a meia dúzia de metros da Faculdade, no Largo de S. Mamede.

Junto à Igreja de São Mamede o Largo da mesma invocação, c. 1912. (Foto Garcia Nunes. Arquivo Municipal de Lisboa)
Junto à Igreja de São Mamede o Largo da mesma invocação, c. 1912. (Foto Garcia Nunes. Arquivo Municipal de Lisboa)

Os cinco anos que viveram desta maneira, isolou-as da realidade, mais do que a mundividência redonda do seu dia a dia na sua adorada ilha.

No final dos estudos, recusaram com polidez as ofertas de carreiras universitárias ou de investigação que lhes foram oferecidas, tendo Maria Luísa acabado por aceitar a oferta da Universidade de Berkeley da montagem de um observatório astronómico na ilha, e Maria Teresa, uma bancada laboratorial repleta de frascos, redes e aquários, oferecida pelo Aquário Vasco da Gama.

Apareceram com aquilo tudo na ilha, numa altura em que o equipamento mais sofisticado que ali existia era uma ventoinha de teto.

E passaram a viver a vida que sempre tinham desejado, na ilha encantada.

Maria Luísa, gastava as noites no observatório, empoleirada no telescópio, a observar e catalogar as estrelas do firmamento, e Maria Teresa, as manhãs nos diversos golfos e enseadas, a recolher as estrelas que a maré depositava nas suas reentrâncias, a identificar e classificar aqueles organismos, que depois a maré da noite devolvia ao mar.

Trecho da cidade da Horta e observatório meteorológico, c. 1910
Trecho da cidade da Horta e observatório meteorológico, c. 1910

As tardes eram passadas a redigir os seus artigos científicos, em duas cadeiras espreguiçadeiras, em frente ao mar, na companhia de um labrador castanho com olhos verdes que dava pelo nome de Balú.

Um navio de carreira irregular que circulava entre as ilhas, levava-lhes os artigos, e trazia-lhes as revistas onde eles eram publicados.

Maria Luísa, tinha elaborado um catálogo próprio de estrelas, e para além disso colaborava com o Yale Catalogue of Bright Stars, e tinha feito uma incursão pelo catálogo de Gliese. Mas a sua magnus opus era um artigo publicado por Harvard, sobre os trabalhos realizados pelo Reverendo Nevil Maskelyne para a determinação da longitude a partir de mapas siderais.

Já Maria Teresa, tinha chegado à glória com um trabalho sobre uma estrela aparecida ali, numa daquelas enseadas, proveniente do Golfo de Áden, desgarrada de uma colónia onde convivia com os corais e a madeira pintada dos dhows, e empurrada, por mais estranho que pudesse parecer, por um vento vindo do Sul.

Quando a comunidade académica e científica internacional protestou pelo isolamento a que se tinham devotado, o governo depois de se ter certificado que qualquer uma das irmãs não professava credos anarquistas, nem sequer fumavam, montou-lhes um telégrafo junto ao observatório.

Numa altura em que o equipamento mais sofisticado que havia na ilha, tinha passado a ser uma torradeira elétrica capaz de fazer duas torradas em simultâneo.

Mas aquele telégrafo, trouxe-lhes o mundo na forma de traço, ponto, traço.

Que às vezes ainda acabavam por aflorar disseminados nos artigos publicados nas revistas, sobretudo quando sujeitos a uma revisão menos cuidada.

Quando acontecia, esclareciam os colegas mais atentos, de que o ponto ou o traço, que tinha aparecido na página tantas do artigo, não era uma nova formulação matemática, mas tão somente um símbolo que se tinha extraviado no éter, entre dois aparelhos de telégrafo, depois de saírem da ponta dos dedos dos telegrafistas para as mesas secretárias dos redatores.

E tinha sido precisamente aquele telégrafo, que de manhã lhes tinha trazido a agradável notícia de que uma série acumulada de contratempos, como caldeiras preguiçosas e mar encrespado, tinham desviado uma fragata da Armada da sua missão programada, e que navegava agora nas imediações, condenando a equipagem a passar a consoada no mar.

De forma alguma, responderam. Era um prazer receber os senhores oficiais para o jantar festivo.

E sem dizer mais nada, resolveram fazer uma surpresa, e por iniciativa própria, decidiram quebrar as suas refeições desde há anos, de meia papaia com um ovo cozido ao almoço, e duas bolachas com uma fatia de queijo no meio, e uma chávena de chá ao jantar, e juntarem-se aos ilustres marinheiros, no jantar da consoada.

E o mais notável de tudo, é que disseram isto mesmo a toda a mesa.

Mas por quem eram, que comessem à vontade…

Uma ceia de Natal (Museum of New Zealand)
Uma ceia de Natal (Museum of New Zealand)

A oficialidade portou-se como era de esperar. Quase todos repetiram por boa educação, e no final, como sempre acontece em casos semelhantes, sobrava pouco menos de meio peru no centro da mesa.

Entretanto, quase no fim da refeição, mas ainda perfeitamente a tempo de participar, o imediato tinha-se juntado ao grupo, e agora ninguém despregava os olhos dele. Teria estado também à altura das suas tremendas responsabilidades? Será que tinha cumprido a missão? O telégrafo estava a funcionar à perfeição?

No final de um quarto de maçã para cada um, e de todos terem educadamente recusado um chá, o jantar foi dado por findo.

Fizeram-se os agradecimentos… é tão raro recebermos… quase empanturrado… os votos de um Feliz Natal… não se nota minhas senhoras… então até à próxima oportunidade… e a oficialidade dirigiu-se para a enseada onde os aguardava o transporte para o navio.

Assim que deixaram de ver as duas simpáticas irmãs à porta da casa, o imediato começou a desfiar a mensagem que tinha acabado de enviar para bordo desde o telégrafo, ponto, traço, ponto, numa ladainha lúdica.

…dez dúzias de ovos estrelados, um porco inteiro na forma de bacon, doze metros de pão de cacete, quatro grades de cerveja, quinhentas azeitonas, uma dúzia de latas de pêssegos em calda, litro e meio de café forte, e todos os restos aproveitáveis do jantar a bordo.

E quando contornaram a última baía e deram de chofre com a sua fragata, e pressentiram pelas vigias a azáfama da cozinha, os olhos encheram-se-lhes de lágrimas, e desejaram entre si novamente um Feliz Natal.

Artur Manuel Pires

Artur Manuel R.N.Pires (Luanda, Maio, 1955), Engenheiro de Minas pelo IST, consultor de engenharia em gabinetes nacionais, na multinacional DHV e, actualmente, Chefe da Divisão dos portos de Setúbal e Sesimbra.

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