Património Cultural Marítimo

Uma batalha naval desconhecida

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O C-19 — moléstia atribuível, consoante os diversos entendimentos: à incúria ou à perfídia de alguém, a um lapso da ciência ou, ainda, a qualquer desígnio divino — está a ter, pelo menos, um efeito colateral que podemos considerar positivo.

Estes dias de detenção, em regime, parcialmente aberto, têm proporcionado dedicarmo-nos a coisas que o lufa-lufa da vida fulgurante, por uma razão ou outra, não tinha permitido.

A semana passada tive a oportunidade de dar uma vista de olhos pelos recantos do espaço a que, pomposamente, costumo chamar biblioteca — mais um paiol onde se amontoam: livros, revistas, papéis, souvenirs (agora mais gifts…) e tralhas diversas que aguardam sentença, quanto ao seu destino. Algumas há vários anos.

Porém, beneficiando das atuais circunstâncias confinantes, ganharam prioridade e atenção não previstas.

Os livros e revistas ainda tinham tido visitas regulares, agora o monte de papéis: folhas, recortes e fotocópias, estavam pendentes, de um eventual, despacho para a “6ª repartição” — na versão para reciclagem: o contentor azul.

A febre de tirar fotocópias a tudo e mais alguma coisa

(casos houve às coisas mais incríveis, inclusive íntimas…) passou, em força, aí por voltas da década de noventa, antecipando e no lugar hoje preenchido pelas fotos e registos que os smartphones proporcionam.

Muita da papelada tinha sido guardada por mim com aquela ideia peregrina de as ler logo que tivesse necessidade ou oportunidade. Algumas foram-me oferecidas ou cedidas por pessoas conhecedoras dos meus interesses, pelo que estas, no mínimo, tinha-as lido, para poder falar dos assuntos com quem me as tinha dado.

Ao folhear um maço (de facto mais um feixe) de fotocópias, saltou-me à vista uma passagem:

Filipe II de Castela, tendo tomado possessão de Portugal em 1581».

— Bem, isto deve ter algum interesse, pois a data e a circunstância de algum modo têm, pois foi no início deste ano que se iniciaram as Cortes de Tomar.

Aonde é que isto pertence? — Uma vez que eram só três folhas agrafadas, revolvi o conjunto, mas não tinham ligação ao restante.

Noutra folha:

o rei tinha elevado algumas famílias a posições de poder de modo a fortalecer a sua posição, entre elas estava a Casa de Vila Franca».

Como nunca tinha ouvido falar desta família, tentei ver o que constava num pequeno Tratado de Armaria que lá tinha, mas não constava referência alguma a tal casa nobre. Telefonei a um amigo que, por ser de “sangue azul”, deveria poder informar-me sobre alguma coisa. Fiquei, então, a saber que se tratava de uma família espanhola, mais propriamente, originária da Catalunha com propriedades   em Maiorca; e que fora, de facto, privilegiada na época filipina.

Mais adiante:

Os portugueses, temendo retaliações pelo seu ataque indevido, dirigiram-se para o alto mar».

Após uma breve descrição de um périplo costeiro, que envolvera um naufrágio, o narrador prossegue:

Quando chegámos a Leiria uma matrona que ia a bordo, que estava muito ansiosa por cuidar de mim andou de porta em porta a recomendar a minha adoção».

Umas linhas a seguir:

Entretanto o comandante português, satisfeito por se ver livre de nós, largou as amarras sem nos dizer nada».

E, como o parágrafo acabava aqui, deduzi: numa sequência natural ter-se-á feito ao mar.

Continuei a leitura a ver o que aquilo dava.

O último parágrafo, a meio da folha em que acabava o primeiro capítulo (na parte de baixo estava o início do capítulo dois), dizia:

E assim foi que a partida do Conde a 15 de Maio de 1623 era do conhecimento comum e dois barcos dos Braganças foram mandados para o raptar. Atacaram as duas embarcações de escolta ao largo de Tomar; mas foram repelidos vigorosamente e feitos em pedaços para glória do Conde. Eu seguia atrás com o grupo de terra e nada sabia destes acontecimentos […]. Os outros incapazes de se defenderem, fugiram, e estas bestas desumanas, como lobos esfaimados por carne, arrastaram-me bruscamente para o seu barco e fizeram-se ao mar».

Dei mais umas voltas às fotocópias, mas não tinham nenhum indício do livro a que poderiam pertencer.

Como no fim da última das três folhas começava o capítulo dois, intitulado A Viagem de Sadeur para o reino do Congo, tomei este título como uma pista possível, para tentar saber de onde tinham sido tiradas as fotocópias que referiam aquela batalha naval «ao largo de Tomar».

 Alusão que me pareceu insólita e até inverosímil. Só podia tratar-se de imaginação, ou melhor, ficção — género literário que hoje em dia domina os escaparates e faz produzir verdadeiros tijolos de papel, grande parte inócuos. Aqui, e a propósito, atrevo-me a fazer um copy-paste do prólogo de Ficções de Jorge Luís Borges:

Desvario laborioso e empobrecedor é o de compor vastos livros; o de espraiar por quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos».

Batalhas navais à vista de costa, em Tomar, que eu saiba, só as que se faziam quando a malta alugava os barcos de recreio, a remos (antes da finura dos a pedais: as gaivotas), no parque do Mouchão e, subindo o rio, já fora da vista do empregado da empresa que os alugava, fazíamos lutas entre barcos, algumas com abordagens que provocavam danos nos “navios”  e idas ao malagueiro.

Na tentativa de identificar o original das fotocópias, fui então procurar — investigar como é agora comum dizer-se — quem era “esse tal de Sadeur” que, a acreditar na indicação, até tinha ido ao reino do Congo! Provavelmente, a seguir à batalha de Tomar ou por voltas disso: meados ou finais do século dezassete.

Bem, nesta busca, questionei o dr. Google, mas, por este nome, não sabia quem tinha sido Sadeur! E o Sadeur do, ou no, reino do Congo? Também nada esclarecedor.

Com uma finta, insisti: Viagens imaginárias século XVII Sadeur. Ah! Lá se lembrou.

Apurei, assim, que se tratava de Nicolas Sadeur protagonista de uma série de aventuras e desventuras, tanto pelas partes conhecidas do mundo, no século XVII, como, e principalmente, pelas desconhecidas, descritas em estilo autobiográfico por Gabriel de Foigny – um frade franciscano suíço, nascido por voltas de 1630.

O périplo que, na sequência de um naufrágio, trouxe a personagem Sadeur a Portugal, faz parte da obra principal de G. Foigny: Terra Austral Conhecida.

Esta obra, é constituída por um relato de viagens fantásticas a terras imaginárias, na altura utopicamente localizadas na parte, então, ainda não conhecida do mundo: o suposto continente austral, envolvente do Pólo Sul e que compreenderia a atual Austrália.

Ao misturar o irreal com o real, e pelo desconhecimento geográfico, que havia na época sobre esta parte da terra, criou um efeito de verossimilhança que levou a que muitos acreditassem e tivessem tomado a epopeia como verdadeira.

No intuito de dar destino às fotocópias, como contributo para reduzir o monte de papel, tentei ir mais além e saber de onde tinham sido tiradas, pois o tema parecia interessante para uma deambulação durante estes dias de encarceramento.

Foi pelo título que o frade Foigny deu às suas lucubrações e devaneios em que, a ver pela vida pessoal real, era useiro — terá abandonado o hábito para se amancebar com uma viúva de má fama; e já calvinista foi sentenciado por ter engravidado a criada — que cheguei ao livro em que Terra Austral Conhecida é abordada e de onde foram tiradas as fotocópias.

Trata-se da antologia Mapa-Múndi, selecionada e organizada por Clara Pinto Correia, que aborda quatro livros escritos nos séculos XIV, XVI[1], XVII e XVIII, nos quais são descritas viagens que nunca existiram e onde apenas o motivo ou algumas partes terão sido verdadeiras.

Um estilo de escrita que hoje consideramos ficção científica ou da literatura do fantástico.

Portanto e “face ao que antecede” (do jargão burocrático), esta batalha naval apenas existiu na imaginação do frade Foigny.

Idêntica origem imaginária se aplica à figura que ilustra este texto: uma genuína fake foto, produto do artesanato virtual caseiro — negócio atualmente em franco desenvolvimento.

Porém, um mérito teremos de reconhecer a Gabriel Foigny: não havendo notícia de que alguma vez tivesse visitado Portugal, estava bem informado sobre a geografia do país, pois sabia da existência e da localização de Tomar, ao situar a cidade para o interior a norte de Lisboa, nas proximidades de Leiria e no itinerário para Coimbra, como se retira do que escreveu na obra porque ficou mais conhecido.

Quanto a um mar navegável por estas paragens, talvez nos tempos bíblicos ou lá para os primórdios do quaternário…


[1] O Livro do Infante Dom Pedro, de Gómez de Santisteban, foi a obra ficcional selecionada alusiva a este século. Conhecido como o “Infante das Sete Partidas”, era o segundo da Ínclita Geração, morreu em 1449 na batalha de Alfarrobeira. Terá feito, de facto, uma viagem invulgar para a época.

Jorge Oliveira Monteiro

Oficial da Armada, fuzileiro especial. Licenciado em Ciências da Educação, pela Universidade de Lisboa, com uma pós-graduação em Estudos Africanos no ISCTE. Escreve habitualmente na revista O Desembarque — revista da Associação de Fuzileiros e é colaborador regular do semanário regionalista O Templário (Tomar).

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