Marinha de Guerra

Uma fragata britânica chamada PRESIDENT

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Um letreiro nas margens do Tamisa

HMS PRESIDENT e Tower Bridge. (Richard Symonds, 2002)

Numa das minhas visitas a Londres, ao chegar à margem do Tamisa, em St. Katharine’s docks, com o intuito de captar mais uma perspectiva da lindíssima Tower Bridge, os meus olhos foram atraídos para um letreiro afixo num edificío metálico sobre um cais com pontão flutuante: “ROYAL NAVY”.

Aparentemente, ali no coração de Londres ficava uma base da marinha do Reino Unido que eu desconhecia e o seu nome era (e é) HMS PRESIDENT.

Um presidente numa monarquia

Numa marinha duma monarquia o nome “presidente” é um nome que soa estranho. Os navios britânicos são batizados com nomes de figuras da família real, cidades, deuses da mitologia grega ou nomes históricos. Mas têm exceções, como quando herdavam o nome dum navio capturado em combate, por exemplo. Entre outros tantos navios de outras tantas guerras, lembro, das guerras napoleónicas, três grandes naus de 74 peças, a  HMS DUQUESNE, (nau francesa ex-LE DUQUESNE, capturada em 1803), a HMS SAN JUAN (nau espanhola ex-SAN JUAN NEPOMUCENO, capturada em 1805) e a HMS Alexandre (ex-L’ALEXANDRE, capturada aos franceses em 1806).

A HMS PRESIDENT de Londres

A história reza que desde 1 de Abril de 1862, que se manteve ancorado em Londres um navio de instrução, de seu nome HMS PRESIDENT, uma antiga fragata de madeira à vela, de 58 peças.

HMS PRESIDENT, nas docas South West India, cerca de 1880. (National Maritime Museum)

Este navio, que tinha sido construído em 1829, não era o primeiro com esse nome. De facto, esta fragata, tinha sido construida à imagem de outra, a ex-USS PRESIDENT,  uma mega-fragata norte-americana de 55 peças, capturada pela fragata HMS ENDYMION num combate que teve lugar ao largo do porto de Nova Iorque, em janeiro de 1815,  no final da Guerra de 1812.

 

 

 

Combate de 14 de Janeiro de 1815, entre a HMS ENDYMION e a USS PRESIDENT (MET, Metropolitan Museum of Art, NY)

O nome foi deliberadamente mantido em memória dessa captura e também da captura em 1806 da fragata francesa PRÉSIDENT que também tinha servido os britânicos de 1806 a 1815, essa sim, a primeira HMS PRESIDENT.

Em 1859, depois de servir no Pacífico, a PRESIDENT (de 1829) foi colocada em reserva em Chatham e três anos depois foi para Woolwich, onde foi convertida em navio de treino da Reserva Naval para o serviço nas West India Docks, de Londres.

 

Ali ficou até março de 1903, quando foi rebatizada OLD PRESIDENT e substituída pela HMS GANNET. Mas, mandou o forte amor britânico às tradições que todos os navios seguintes, colocados ao serviço da Reserva Naval de Londres, tivessem o nome PRESIDENT.  E assim se fez, renomeando o HMS GANNET, o HMS BUZZARD e por último a corveta HMS SAXIFRAGE (da classe FLOWER de 1918) que sobreviveu até 1988, ano que foi vendida e a divisão londrina da Reserva Naval Real se mudou para terra, para o antigo edifício e cais dos ferries da P&O, junto às docas de St. Katharine.

 

HMS PRESIDENT no antigo cais da P&O, junto a St. Katharine’s docks (foto do autor, 2017)

É assim que chegamos aos nossos dias e HMS PRESIDENT é agora uma “fragata de pedra”, a unidade da Royal Naval Reserve de Londres, com base na margem norte do rio Tamisa, perto da Tower Bridge, no bairro londrino de Tower Hamlets.

 

 

 

 

O HMS PRESIDENT de 1918, no rio Tamisa, quando funcionava como espaço de eventos. (foto de Gary Hudson, 2004)

Como curiosidade, refira-se que o último navio a utilizar o nome HMS PRESIDENT (o ex-HMS SAXIFRAGE), que tinha sido preservado e atracado a um cais no rio Tamisa, onde funcionava como restaurante para eventos, se encontra presentenmente em risco de ser desmantelado. Os seus proprietários, o HMS PRESIDENT PRESERVATION TRUST procuram obter 2 milhões de libras para terminar o trabalho de restauro e conseguir um local de amarração perto da London Bridge e do navio museu HMS BELFAST, onde pretendem fique exposto como testemunho da participação da marinha na primeira grande Guerra.

Oficial da Marinha de Guerra. Especializou-se em submarinos, onde navegou cerca de seis anos. Foi representante nacional na NATO para Electronic Warfare e Psychologic Operations. Esteve colocado cerca de sete anos nos Açores onde foi Autoridade Marítima local. Em 1997 ganhou o prémio de melhor colaborador da Revista da Armada.