Marinha de Comércio

Uma mulher ao leme dum graneleiro de 58.000 tons

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O meu quarto comando foi no PORT SHANGHAI, um graneleiro de DWT 58000mt, que se iniciou com a doca seca em Shanghai, na China, a que se seguiu a minha experiência de comando mais complicada com um carregamento de Steel Slabs, de Nakhodka, Rússia, para Portland, na Costa Oeste dos Estados Unidos.

Esta carga consistiu em blocos de aço com 8000x2500x150mm, com cerca de 30-35 toneladas, cada um estivado com apenas cinco a seis ripas de madeira entre eles, para reduzir o atrito. Entre a carga e a antepara para os bordos são erigidas armações de madeira para evitar o contacto da carga com a estrutura do navio. Dado o peso da carga e o seu centro de gravidade muito baixo, o navio fica com excesso de estabilidade, que provoca um balanço muito rápido e que pode levar a carga a mover-se e causar danos no tanque de lastro ou em última instância causar danos no casco. Daí que o balanço transversal, deve ser mantido num mínimo de forma a preservar a integridade do navio, que está directamente associada à salvaguarda da vida da tripulação.

O navio graneleiro MV PORT SHANGHAI, da Portline Bulk International. (imagem cedida por Carla Muralha)
O navio graneleiro MV PORT SHANGHAI, da Portline Bulk International. (imagem cedida por Carla Muralha)

No dia 21 de Fevereiro o navio saiu de Nakhodka, na Federação Russa, com destino a Portland, na Costa Oeste dos Estados Unidos. A primeira situação ocorreu dois dias depois da saída, quando uma baixa pressão, que provocou ventos de força 9 Beaufort e mares de cinco a seis metros atravessados, obrigou a desviar o rumo do navio para evitar o balanço transversal, de forma a manter a carga segura.

Nas previsões meteorológicas havia mais uma baixa pressão já formada no Japão, que iria chegar ao navio três dias depois. Com o apoio do Armador que me manteve sempre informada das últimas previsões meteorológicas, e dada a dificuldade sentida com a primeira baixa de manter o navio e a tripulação em segurança, tomei a decisão de desviar o rumo para Sul de forma a evitar esta segunda baixa.

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O PORT SHANGHAI atracado no Panamá (Instagram_mon.petit.choux)

Na minha experiência, o Oceano Pacífico apresenta uma característica que dificultou a viagem, que é o facto de durante o Inverno haver sempre presentes várias ondulações  de sistemas e frentes que já passaram, dificultando a tarefa de manter o navio com o mínimo de balanço possível, para evitar que a carga se movimentasse.

Durante a viagem foram vários os sistemas e frentes associadas encontradas, mas recorrendo a alterações de regime de máquina e leme foi continuada a travessia do Pacífico. A rota foi também alterada de forma a passar mais pelo Sul, evitando o caminho usual das baixas pressões do Pacífico.

No dia 16 de Março, finalmente, o navio chegou a Portland, tendo entrado directamente para o cais de descarga. Apesar de todos os cuidados, foi verificado que a carga se tinha movido uns centímetros mas não causando danos à estrutura do navio.

A Comandante Carla Muralha
A Comandante Carla Muralha

Este artigo pretende ser uma homenagem a todas as mulheres portuguesas que trabalham no mar. A autora, Carla Muralha é comandante da Marinha Mercante.  Embarcou pela primeira vez num navio “capesize”, como Praticante de Piloto, em 1995 e em 2003, ano em que se licenciou em Pilotagem pela Escola Náutica Infante D. Henrique,  embarcou no graneleiro PORT ESTORIL, na categoria de Imediato, Funções que também desempenhou no navio INA entre 2006 e 2009.

Ainda em 2009, assume o seu primeiro comando no porta contentores PORT TEJO. Seguem-se os comandos dos graneleiros ANGELA (2010), PORT ESTORIL (2011) e PORT SHANGHAI em 2012.

Após desembarcar, ainda em 2012, passou a desempenhar funções em terra, ocupando atualmente o cargo de Supervisora de Operações na empresa Portine Bulk Intl.  apoiando, a partir do escritório, os comandantes dos navios da empresa.

N.R. excerto do texto “Comandar no Oceano Pacífico”, por Carla Muralha, um dos exemplos de Comando no Mar em Português, coligidos na obra COMANDAR NO MAR, das Edições Revista de Marinha.

O livro Comandar no Mar, um best seller das Edições Revisra de Marinha, foi lançado em 2017 (Editora Náutica Nacional)
O livro Comandar no Mar, um best seller das Edições Revista de Marinha, foi lançado em 2017 (Editora Náutica Nacional)

 

1 Comentário

  1. Schieder Da Silva Responder

    Esta do “excesso de estabilidade” è nova para mim,pois nao sabia wue isso tambem pode ser prejudicial ä estabilidade do navio.
    No navio mercante em que trabalhei tambem tivemos uma carga de cimento a granel,mas essas preocupaçoes de “excesso de estabilidade”foram atenuadas com umas garrafas de wiskey,pois ambos os oficiais eram alcoolicos e essas cenas de segurança nao eram para eles.
    Neste caso de uma mulher a navegaçao maritima sö tem a ganhar,porque as mulheres nao descuidam a segurança por motivos da sua natureza,parabens!

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