Património Cultural Marítimo

Uma peça de bronze de Carcavelos

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Ao contrário das peças de artilharia de ferro, os canhões de bronze podiam ser utilizados muito após a sua fundição. Por exemplo, segundo o historiador inglês Charles Boxer, quando Wellington tomou Badajoz havia canhões portugueses de meados do século XVII ainda em serviço. Por esta razão, quando encontramos um canhão isolado, torna-se muito difícil, mesmo complicado, identificar a que navio pertencia. Do mesmo modo que também não conseguimos saber por que razão um objeto “caro” – a artilharia de um galeão representava quase metade dos custos do seu aprontamento – teria sido atirado à água. Naturalmente que, quando um navio tinha o azar de encalhar, uma das primeiras ações era a de aliviar a carga do navio e, nessa situação, as peças de artilharia eram uma opção.

O balão à superfície que sustentava a peça ainda antes da tentativa de a içar para bordo da embarcação de apoio (imagem Augusto Salgado)
O balão à superfície que sustentava a peça ainda antes da tentativa de a içar para bordo da embarcação de apoio (imagem Augusto Salgado)

Estas são as dúvidas que atualmente temos relativamente a uma peça de bronze que encontramos em setembro de 2015, em frente à praia do Moinho, junto a São Julião da Barra, em Oeiras. Até porque a profundidade no local é de cerca de 10 metros, ou seja, dificilmente um navio ali teria encalhado. Deste modo, todo o Verão do ano seguinte, ainda antes do canhão ser içado, foi passado a tentar verificar se haveria mais canhões ou outros objetos nas proximidades que nos ajudassem a explicar a presença desta peça de artilharia solitária. Infelizmente, apenas foram encontradas nas proximidades algumas âncoras, de diferentes tipologias, nada contribuindo para esse propósito.

O momento em que a peça foi registada, após ter sido tratada no Museu do Mar, em Cascais (imagem Augusto Salgado)
O momento em que a peça foi registada, após ter sido tratada no Museu do Mar, em Cascais (imagem Augusto Salgado)

Após mais de um ano em tratamento, finalmente foi possível apreciar toda a beleza desta peça, com cerca de 3 metros de comprimento e com um peso estimado de pouco mais de uma tonelada. Uma coisa era certa, tinha sido fundida num período que, em Portugal, denominamos de “período Filipino” pois, lá estava o escudo dos Habsburgos, mas com o escudo do Ducado de Milão. Com mais de uma dezena de navios portugueses naufragados na zona nessa época, incluindo a nau NOSSA SENHORA DOS MÁRTIRES escavada por ocasião da EXPO 98,, assim como quatro navios de Castela, para além de outras nacionalidades, os candidatos continuavam a ser muitos.

Curiosamente, e graças a um amigo italiano, descobrimos que havia um exemplar semelhante no pátio dos Canhões, do Museu Militar de Lisboa (a quem queria agradecer publicamente o apoio que nos deu), embora um pouco maior. Assim, foi possível realizar um estudo conjunto das duas peças e perceber que ambas tinham sido fundidas em Itália, mais concretamente na Lombardia, integrada no Ducado de Milão que, na época, fazia parte dos domínios dos Habsburgos.

Desenho detalhado do canhão presente no Museu Militar (imagem José Bettencourt)
Desenho detalhado do canhão presente no Museu Militar (imagem José Bettencourt)
Desenho detalhado do canhão de Carcavelos após restauro (imagem José A. Gonçalves)
Desenho detalhado do canhão de Carcavelos após restauro (imagem José A. Gonçalves)

Através de informação dos arquivos soubemos que a peça que está no Museu Militar terá vindo, em data incerta, de Moçambique, pelo que também não nos ajudou na identificação do navio a que pertencia a “nossa” peça.

Esta é uma das realidades que os arqueólogos marítimos muitas vezes têm de aceitar, ou seja, de que não é assim tão fácil identificar a proveniência do espólio que muitas vezes é encontrado no fundo do mar.

Pormenor dos brasões do canhão de Carcavelos. À esquerda Antonio de Zúñiga Gusmán y Sotomayor, e à direita, Reino de Espanha durante a dinastia dos Habsburgos (imagem Augusto Salgado)
Pormenor dos brasões do canhão de Carcavelos. À esquerda Antonio de Zúñiga Gusmán y Sotomayor, e à direita, Reino de Espanha durante a dinastia dos Habsburgos (imagem Augusto Salgado)

 

Mais leituras:

Renato Gianni Ridella et all, “A Spanish bronze cannon recovered off Carcavelos, Portugal”, Journal of the Ordnance Society, vol.27, 2020, pp.49-57.

Augusto Salgado

O Cte Augusto Salgado é oficial da Armada, doutorado em História dos Descobrimentos, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Membro efetivo ​da Academia de Marinha e da Comissão Portuguesa de História Militar. Tem vasta obra publicada sobre História Naval e Arqueologia Subaquática. É colaborador da Revista de Marinha desde finais de 2003.

2 Comentários

  1. Jorge Belo de Morais Responder

    Tanto quanto sei, a “praia do moinho” é uma designação moderna. Há cerca de 100 anos tinha a designação de” Praia do Inglês morto” e assim foi conhecida durante muitos anos. Esse nome deriva de um inglês que foi encontrado morto nas rochas da praia. História secular que recebi da minha família que está em Oeiras há cerca de duzentos anos. Zona de muitos naufrágios especialmente porque com mau tempo e ondulação de sudoeste forte, a passagem curta entre o Forte de S. Julião da Barra e o ‘Cachopo’ que se forma muito perto a sul é propícia a encalhes e naufrágios.

  2. Artur Manuel Pires Responder

    Artigo muito interessante. Sem ser extenso, é particularmente rico em pormenorização, e com excelentes ilustrações.
    Os parabéns ao autor e à Revista de Marinha.

    Cordialmente, Artur Manuel Pires

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