Desportos Náuticos

Vela: urgente reencontrar-se

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No desporto da Vela a paralisação agravou o estado de estagnação, precipitando o declive que se tem vindo a observar ao longo dos últimos anos, fazendo-nos agora crer tudo ser consequência do Coronavírus.

Não foi o Covid que impossibilitou decisões convenientes e estruturadas …nem inviabilizou um trabalho planeado e sustentado para um programa olímpico.

Covid serve e vai servir para justificação do injustificável.

As reacções terão de ser firmes e em conformidade, no sentido de minimizar o prejuízo de défice desportivo acumulado, para que o reflexo não cause mais danos.

Soluções procuram-se.

Diz o ditado que “em tempo de guerra não se limpam armas”, o que significa que em tempo de crise tudo é válido para sobreviver. O mundo, como nunca antes visto, com a pandemia Covid-19, enfrenta, a par da sustentabilidade do ambiente, a maior crise das gerações vivas. O pânico é geral e as soluções procuram-se.

O desporto é um dos braços da actual sociedade e faz parte da vida moderna, tendo uma área de impacto económico com número muito significativo, dependendo muitas pessoas da sua existência e formas de expressão, tanto no recurso na prática directa das inúmeras modalidades desportivas, como por terceiros na qualidade de prestadores de serviços e espectadores aquando presentes nos recintos adstritos, sendo o seu maior volume de observadores através da Comunicação Social televisiva e escrita. Os valores em “jogo” atinge imensuráveis zeros à direita dos €€ e $$.

Rapidamente fará um ano que o Coronavírus se instalou, imobilizou e aterrorizou a comunidade mundial, inviabilizando-a da sua habitual regular rotina de exercício desportivo, um dos seus maiores prazeres de descontração psíquica e imprescindível para a boa manutenção da forma física. O hábito do exercício físico causa bem-estar e maior robustez a quem o pratica, é um facto indesmentível, as estatísticas comprovam-no.

O ano de 2020, apesar das profecias dos charlatões que viram nos astros um ano de felicidade para o mundo, o resultado está traçado e à vista, …ano bissexto cientificamente comprovado por os estudiosos ancestrais, eles, bem mais rigorosos que os presentes astrólogos de vaticínios. Ano bissexto, marco quadrienal de relevo para o desporto mundial como sendo o apogeu de aferição dos seus heróis aquando os Jogos Olímpicos, seria em Julho-Agosto, não aconteceu e as dúvidas são grandes se realizar-se-ão no próximo ano, pois o Japão já afirmou que só os efectivará se houver público, …lá está a tal necessidade de viabilidade económica que anda de braço dado com a sustentabilidade da humanidade. Da nossa parte a dúvida de concretização é grande, esperemos errar!

António Roquette e João Paulo Rebelo, respectivamente Presidente da FPV e Secretário de Estado da Juventude e do Desporto
António Roquette e João Paulo Rebelo, respectivamente Presidente da FPV e Secretário de Estado da Juventude e do Desporto

As modalidades desportivas são muitas e todas elas sofreram e sofrem com o desígnio imposto de restrições sanitárias, contudo a maioria encontrou forma de sobreviverem, sustentarem-se, e “darem a volta por cima”, no entanto no desporto da Vela esta paralisação agravou o estado de estagnação, precipitando o declive que se tem vindo a observar ao longo dos últimos anos, fazendo-nos crer tudo ser consequência do Coronavírus.

Licença Desportiva – Não foi o Covid que provocou a queda de número de Licenças Desportivas;

Clubes – Não foi o Covid que proibiu os clubes de receberem apoio e ajuda para se adaptarem e poderem manter as escolas de vela activas, e no mínimo, igualar a captação do mesmo número de praticantes de outrora;

Provas – Não foi nem é o Covid que provoca o caos numa adequada e atempada calendarização de provas;

WS – Não foi o Covid que obriga ao não cumprimento das regras e regulamentos da WS (Word Sailing) em não impor o recebimento das verbas correspondentes das provas privadas e patrocinadas;

Árbitros – Não foi o Covid que inviabilizou a FPV de honrar o compromisso de pagamento a árbitros desde 2010;

Divulgação – Não foi o Covid que desresponsabilizou a obrigatoriedade de divulgação das Actas e outros actos federativos no site da FPV;

Delegados – Não foi o Covid que emaranhou o resultado da eleição dos Delegados à Assembleia Geral;

Planeamento – Não foi o Covid que impediu decisões convenientes e estruturadas para uma Vela em Portugal continuada e consistente;

Apoios – Não foi o Covid que decidiu apoiar, em detrimento de outras competições de clubes federados, empresas privadas na organização de festivais e provas náuticas de cariz “vela espectáculo”, já com chorudos patrocínios, que muito ou nada promoveram ou ajudaram a Vela nacional;

Congresso – Não foi o Covid que obrigou a Federação a não realizar o estatuariamente imposto para a realização do seu Congresso nos últimos três meses do ano olímpico, 2016. Tanta vez marcado e adiado, de tal forma que a última proposta não teve adesão de presenças, resolvendo-se aproveitar a data num jantar de gala de Festa dos Campeões, que só teve como participantes a comparência dos premiados e convidados, por ser gracioso. No entanto os custos de organização e staff ao longo dos meses deixou mossa nos cofres federativos;

Olímpicos – Não foi o Covid que inviabilizou um trabalho planeado e sustentado no tempo para a detecção e apuramento de velejadores com talento para um programa olímpico. Há somente uma classe apurada para Tóquio, quando nas últimas edições a participação do país se fazia pela maioria das 10 classes em competição;

Match Racing – Não foi o Covid que passou o atestado de óbito ao Match Racing em Portugal e ao seu espólio;

Regulamento Desportivo – Não foi nem é o Covid que abranda a rápida necessária alteração do Regulamento Desportivo, para que não se verifique o incompreensível – os clubes mais abastados poderem optar pela escolha de árbitros para as provas por eles organizadas, privando outros árbitros de participarem em provas mais credenciadas, situação que ao mesmo tempo pode viciar as regras do jogo, tanto na directa avaliação desportiva, como no ranking de experiência dos árbitros. Opção de escolha é sustentada no falso argumento que são esses clubes que suportam as despesas dos árbitros indicados, quando na realidade recebem apoio para essas provas. Imaginem o Futebol Clube do Porto, Sporting, Benfica, ou outro escolherem os árbitros para os jogos realizados em casa…;

Apoio Estado – Não foi o Covid que cortou verbas estatais estipuladas de ajuda ao apoio federativo. Não, o Estado manteve e honrou as quantias apesar da nula prática desportiva, …mesmo quando esta estava proibida, tudo foi suspenso, e bem na defesa dos seus praticantes, provocando uma inerente poupança de possível aplicação em acções em proveito dos malefícios ocasionados.

Mas como em tudo na vida há o reverso da medalha, e aqui o Covid serve e vai servir para justificação do injustificável. Se não se fez …a culpa é do Coronavírus que tem as costas largas.

Um Hobie Cat em regata na barragem do Abrilongo, perto de Campo Maior (imagem António Peters)
Um Hobie Cat em regata na barragem do Abrilongo, perto de Campo Maior (imagem António Peters)

Uma coisa, ou mais, é certa:

quando uns choram, outros vendem lenços

– Jogos Olímpicos adiaram o previsível, com consequência num prolongamento do destino presidencial da federação agonizar por mais um ano, rebocando a passividade para patamares ainda por conhecer;

– Os clubes poderão ver o risco de entrarem em falência, sem receberem qualquer ajuda técnica ou financeira, consta que até já há alguns a pedirem ajuda aos associados para sobreviverem;

– As Associações Regionais continuaram a usufruir dos valores acordados sem os utilizar nas carências dos clubes associados. De relembrar que a sua actividade esteve encerrada no Covid, minimizando os poucos custos visíveis;

– Os destinos da Federação atrasar-se-ão na sua recuperação visto o próximo mandato ficar debilitado em pelo menos um ano de vigência, ficando a Direcção futura mais comprometida.

Perante estes factos as reacções terão de ser firmes e em conformidade, no sentido de minimizar o prejuízo de défice desportivo acumulado, para que o reflexo não cause mais danos em sintonia com os zeros que atrás referenciámos, logo, há que encontrar solução e trabalhar para que a comunidade da Vela portuguesa não sofra com os que se aproveitam da desgraça para venderem lenços.

Será que os vendedores de lenços sairão impunemente vencedores?

A Vela terá de se reencontrar em novos ventos e marés.

Soluções, procuram-se.

António Peters

Desportista Náutico e há muito ligado às coisas do mar, foi dirigente da Associação Nacional de Cruzeiros, sendo hoje parte dos seus órgãos sociais. Organizador regular de regatas à vela, é também colaborador e comentador da SportTV para a modalidade Vela. Colabora com a Revista de Marinha para a Náutica de Recreio desde 2011. António Peters não cumpre o novo acordo ortográfico

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