Crónicas

Viagem a São Miguel

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O Doutor João Leal vai levar o seu barco AÇOR de Angra do Heroísmo até Ponta Delgada. Tem umas velas para consertar e outros pequenos arranjos no barco. Será acompanhado pelo António Silveira, homem experiente, marinheiro competente e com muitos anos a velejar.

O AÇOR (foto da autora)
O AÇOR (foto da autora)

Soube desta viagem pela Margarida Ferreira, também médica, mulher do João e muito minha amiga. Fiz-me convidada, a intimidade que partilho com a Margarida permitiu-me esta liberdade. O João, homem de uma brandura e generosidade imensas não se opôs, sei que até se sentiu agradado, como são todas as almas que gostam de partilhar o que amam.

O comandante: Dr. João leal (foto da autora)
O comandante: Dr. João leal (foto da autora)

Zarpámos às 20 horas do dia 19 de Julho da marina de Angra, preparativos feitos no barco e enchida a despensa de alguma comida e excelentes vinhos, que nisso o João não admite qualquer zurrapa (apesar de, em qualquer função do Espirito Santo, em banco corrido e corpo prensado pelo pouco espaço, beber o vinho intragável que lhe oferecem e por delicadeza e graça afirmar “que escapa”). Tivemos vento sudoeste de 10 nós e pusemos rumo directo até a Ponta da Ferraria em São Miguel. Navegámos com a vela grande, pano máximo e genoa. A noite foi calma, de velocidade constante, e a lua, ainda quase cheia, tornou o mar uma imensa prata ondulante. Vento tépido, companhia silenciosa, mas cúmplice do momento. A solenidade dispensa, por vezes, comentários. Mas o cansaço levou a melhor sobre mim e, às tantas, recolhi-me no meu espacinho de descanso.

A tripulação: Bárbara Loução, António Silveira e João Leal (foto da autora)
A tripulação: Bárbara Loução, António Silveira e João Leal (foto da autora)

O António lá ficou, tranquilo, atento, a noite toda, faz parte duma minoria abençoada que consegue dormir de pé, diz ele que fechar os olhos por breves instantes lhe permite o descanso necessário para aguentar a noite, insone. Também não é homem de cafés, o gozo da noite no mar é adrenalina que o mantém sem que seja preciso mais estimulante do que esse.

Acordei já era dia, ainda ténue, envergonhada por o ter deixado sozinho. O João tinha-se recolhido mais cedo, o corpo já não se compadece com frio da noite. Lá estava o António no seu posto, com a frescura do primeiro instante. Chegámos à Ponta da Ferraria às 8H30 e navegámos à vela durante mais duas horas até que o vento caiu, obrigando a ligar o motor para fazermos as restantes 10 milhas até Ponta Delgada. O João estava com uma excelente disposição, a inteirar-se e a assumir o comando. Mas, como nisto do mar, o imprevisto surge mais vezes do que as mais fantasiosas previsões, o motor parou subitamente. Uma fumaceira enorme vinda do motor que encheu a cabina e os compartimentos, impedindo-nos de descer durante longos instantes.

António Silveira ao leme (foto da autora)
António Silveira ao leme (foto da autora)

O primeiro pânico a bordo?!

Tire lá o pânico que é em demasia e substitua por espanto, que é o mais correcto!

O João sempre fleumático, até em alguns, poucos, palavrões mais redentores que se ouviram aqui e ali, sempre com grande estilo. Deram-se conta que rebentara a correia do alternador, já muito usada, que também serve a bomba de água de refrigeração do motor. Tocara o alarme de sobreaquecimento e o motor desligou. Desligada a chave foi necessário deixar arrefecer antes de se tomar qualquer iniciativa mecânica. Pensou-se no reboque e contactou-se o homem das velas que, não percebe só de velas. No entanto, havia uma brisa, uma muito pequena brisa e sendo assim, içou-se o spi que nos permitiu seguir, durante aproximadamente 2 horas, à velocidade “vertiginosa” de 2,5 a 3,5 nós. O spi, muito leve, fez o seu trabalho e eu tive a oportunidade excitante de o manter a trabalhar, afrouxando ou tensionando o cabo a fim de manter a eficácia da brisa no pano do spi. Sempre apoiada no ensino paciente dos meus dois professores de vela.

A velocidade do AÇOR (foto da autora)
A velocidade do AÇOR (foto da autora)

Suponho que fiz, a certa altura, perguntas absolutamente estupidas, mas se o foram, as expressões lacónicas de ambos não o deixavam transparecer. Fui descobrindo ao longo dos dias, várias coisas: primeiro, a relação de absoluta confiança do João no António e o respeito deste pelo primeiro, sinal de muitas milhas já percorridas, em parceria; depois, o humor discreto de ambos, subtil, às vezes mordaz, mais contido no início por parte do António, menos cauteloso para o fim da viagem. O João é um poço de graça sem que, para isso, nos lancemos no chão às gargalhadas. Fizeram-me rir e estou em crer que respondi à altura. Entretanto, chegou o Rui num semi-rígido. Algarvio, a viver há 15 anos nos Açores, fez uma rápida observação do motor e vaticinou que lhe parecia ter sido apenas o problema da correia e que não havia danos de maior. Trocada a correia, mantivemo-nos com o spi à mesma velocidade, e ligou-se o motor quase à entrada da marina de Ponta Delgada, pelas 12H30.

O dia restante foi ocupado com procurar algo de comer, tirar as velas e demais material a ser consertado, e olhar para o motor. Fez-se, também, uma limpeza grande à cabina, casas de banho e demais compartimentos. A partir daí houve algum descanso. E chegou a hora do jantar, com uma salada de rocaz que o João tinha preparado na manhã da partida, devidamente regada com um excepcional vinho branco, Mirabilis.

A Marina de Ponta Delgada (foto Sandro Porto)
A Marina de Ponta Delgada (foto Sandro Porto)

Todos os outros dias foram ocupados com trabalho, muito descanso, umas corridas até Santa Clara e bons banhos nocturnos quando o mar era só nosso. Houve muita cavaqueira com a visita inesperada dos nossos amigos franceses, Véronique e François. Os dois, amizade recente de há algumas semanas na Terceira, também eles donos de um veleiro que, enquanto escrevo esta crónica estão no segundo dia de viagem rumo à Normandia em França.  Bons ventos os protejam!

Veronique e François, amigos franceses (foto da autora)
Veronique e François, amigos franceses (foto da autora)
François e Veronique, os amigos franceses com João Leal e Bárbara (foto da autora)
François e Veronique, os amigos franceses com João Leal e Bárbara (foto da autora)

As velas chegaram consertadas no tempo certo e o João decidiu a partida para dia 23 de Julho, terça-feira, dentro do que estava inicialmente previsto.

Partimos da marina de Ponta Delgada às 16H45 e passámos a Ponta da Ferraria por volta das 19H30.

A terminar de colocar a vela grande (foto da autora)
A terminar de colocar a vela grande (foto da autora)
António a preparar para soltar os cabos de amarração (foto da autora)
António a preparar para soltar os cabos de amarração (foto da autora)
O AÇOR à saída do porto de Ponta Delgada (foto da autora)
O AÇOR à saída do porto de Ponta Delgada (foto da autora)

E para manter o registo de alguma surpresa na viagem, do imprevisto e do inesperado, passadas umas 14 milhas da Ponta da Ferraria tivemos um encontro com um cachalote. Não poderei dizer que o abalroámos dramaticamente, porque felizmente continuou o seu rumo que era também o nosso, mas que o surpreendemos quando a proa do AÇOR bateu nele. O João e o António estavam na cabina e eu cá fora, o ruído do encontro não desejado foi enorme e, acto quase instantâneo, aparece o António olhando para o mar à popa e a apontar para o vulto de um cachalote. Obviamente que não o vi, nestas coisas, quando preciso ver o que é importante, porque sou míope e não uso óculos, passa-me muita coisa ao lado. Segundo o António, e porque não encontrou sinais de sangue no casco, o toque terá sido de raspão, na cauda, possivelmente. O barco também não ficou, aparentemente, danificado.

António já na viagem de regresso à Terceira (foto da autora)
António já na viagem de regresso à Terceira (foto da autora)

Já rumo a Angra do Heroísmo, navegámos com vento oeste, na ordem dos 20 nós, e com ondulação de proa com cerca de 3 metros. O AÇOR seguiu com a genoa toda içada e com a vela grande no 1º rizo. A velocidade do AÇOR manteve-se constante, cerca de 8 nós. Eles sabiam que, ao aproximarmo-nos da ilha Terceira, a ondulação iria aumentar, tal como o vento iria subir para valores superiores aos 25 nós e rondar para noroeste. À medida que nos fomos aproximando da Terceira, as previsões confirmaram-se. Viram-se obrigados a reduzir a genoa e a trazer a vela grande para o 2º rizo. Para tornar a viagem um pouco mais confortável, decidiram não continuar com rumo directo a Angra, mas arribar um pouco, na direcção da Praia da Vitória.

Ponta da Ferraria, São Miguel (foto da autora)
Ponta da Ferraria, São Miguel (foto da autora)
O pôr do Sol na viagem de regresso (foto da autora)
O pôr do Sol na viagem de regresso (foto da autora)

Pouco depois das 04H00, tínhamos já navegado cerca de 70 milhas, depois da Ponta da Ferraria, e estávamos ao largo do Porto Martins (Terceira). Apesar da boa média (8 nós), por termos arribado em benefício do conforto no “canal” S. Miguel-Terceira, ainda nos faltavam percorrer cerca de 12 milhas até Angra. Estas 12 milhas foram navegadas a pouco mais de 3 nós, apenas com a vela grande no 2º rizo e com o auxílio do motor, já que tínhamos ondulação e vento pela proa.

Nascer do sol à chegada à Terceira (foto da autora)
Nascer do sol à chegada à Terceira (foto da autora)

A noite foi passada lá fora, para compensar a viagem de ida, a aproveitar até ao sabugo tudo o que podia. O pôr do sol, o nascer do sol e tudo no entretanto. O João, na cabina, sempre atento e alerta, ia ora fazendo paciências no seu tablet ora registando no seu diário, os acontecimentos do dia. Comandava, dava indicações, informações. Cá fora, o António sempre alerta também, velando para que nada fosse esquecido.

A chegada a Angra do Heroísmo (foto da autora)
A chegada a Angra do Heroísmo (foto da autora)

Eu observava, registava tudo, absorvia aquela noite de maior intensidade física, mas igualmente gloriosa. Não houve frio, cansaço ou aborrecimento. Noite sublime… assim…

Chegámos a Angra às oito e meia da manhã num dia de sol agradável e com a cidade, naquele formato delicioso de presépio, a receber-nos sorridente.

Eu, eu sei que sorria!

“eu sei que sorria” (foto da autora)
“eu sei que sorria” (foto da autora)
Bárbara Loução

Mãe de três filhos, filha de marinheiro, professora de educação física, amante do mar, vai-se entretendo com a escrita, escreve crónicas, ocasionalmente, para o jornal Diário Insular. Tem um blogue onde relata as pequenas graças da vida. Gosta de desafios e aventuras ao ar livre.

2 Comentários

  1. Artur Manuel Pires Responder

    Muito interessante o artigo da Prof. Bárbara Loução.
    Os parabéns à autora e à Revista de Marinha.

    Artur Manuel Pires

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