Náutica de Recreio

Volta ao Mundo duma famíla açoriana – entrevista com Joana Amen

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uma experiência que os vai enriquecer no respeito e valorização da diversidade humana, cultural, geográfica e histórica

Joana Amen é uma jovem psicóloga do Porto. Foi para S. Miguel trabalhar em 2006 por se ter apaixonado pelo arquipélago no verão de 2005. Em S. Miguel, embarcou numa viagem de vida com Armindo Furtado, um açoriano apaixonado pela vela e os desportos náuticos, e agora, que já são quatro, partiram para o mar, numa viagem épica de volta ao Mundo à vela. Com esta viagem, além do desenvolvimento pessoal inerente, Joana pretende ampliar o seu conhecimento na área da intervenção comunitária e, enquanto mãe, considera que esta experiência os vai enriquecer a todos como família e às crianças em particular, no respeito e valorização da diversidade humana, cultural, geográfica e histórica.

Joana, Armindo, Benita e Leonardo partiram de São Miguel no dia 6 de novembro de 2016, a bordo do BENYLEO 2, um catamaran à vela de 12 metros .

Falámos com Joana Amen sobre a viagem da Família Amen-Furtado, o que ela nos conta não deixa ninguém indiferente.

Joana Amen fotografada pela filha, Beni

RM: Olá Joana, já estão no mar desde novembro de 2016. Percorreram o Atlântico, atravessaram o canal do Panamá e já correram o Oceano Pacífico. Como passaram este segundo Natal em viagem?

JA: Este Natal fomos para o interior, para Ubub, a capital cultural de Bali. Depois de um ano passado no mar, o desejo foi de um pouco de terra  Como aqui são hindus tivemos de procurar bem o espírito natalício e encontramo-lo numa festa finlandesa, com um lindo buffet, músicas natalícias, uma árvore de natal iluminada e um pai natal que chegou de mota, porque as cinzas do vulcão não lhe permitiram chegar de trenó!!!

RM: Incrível! Um Pai Natal finlandês de mota na Indonésia é uma imagem que traduz bem o inesperado, uma característica permanentemente presente numa aventura como a vossa. Para muitos dos nossos leitores, amantes do mar, meter-se com a família no barco à vela e partir a percorrer o Mundo é uma ideia que não passa dum sonho. Uma aventura também acarreta muitas dificuldades, desde logo na preparação e no planeamento. E é por isso que poucos ou nenhuns arriscam partir. E a vós, o que vos levou a decidir partir nesta aventura?

JA: Quatro anos antes da partida começamos a sonhar com uma vida diferente, fora do trilho, com tempo de qualidade para educarmos os nossos filhos, educá-los num formato diferente, mais flexível, mais personalizado e com uma forte componente desportiva.  Também sonhávamos conhecer o mundo!

RM: Como resolveram as questões relacionadas com os vossos empregos?

JA: Eu, pedi uma licença sem vencimento, felizmente aceite pela minha entidade patronal, o Patronato de São Miguel. O Armindo, que sempre trabalhou por conta própria, suspendeu a sua atividade profissional.

Leo e Beni nas Caraíbas

RM: Muito bem, resolvida essa questão, faltava resolver a questão da escola das vossas lindas crianças. Como fizeram?

JA: A Benita está a frequentar o 3º ano sob a modalidade do ensino doméstico e o Leonardo ainda não está em idade escolar mas está a crescer e aprender muito com esta viagem. Os nossos filhos estão a ter oportunidades muito diferentes do que se vivessem em terra. Têm aprendido tudo o que se relaciona com o mar, desde a vela, navegação, surf, windsurf, pesca, natação, meteorologia, geografia, gestão de energia e água, etc., assim como um pouco da História, da flora, da fauna e das tradições culturais dos sítios que visitamos. Estão também aprender três línguas ao mesmo tempo, inglês, francês e espanhol, porque é assim que nos vêm comunicar e porque necessitam de entender e de se fazer compreender quando brincam com as crianças locais. E por último, estão a ter a oportunidade de contactar e aprender a respeitar e a admirar uma pequena parte da incrível diversidade cultural humana.

RM: De facto, as viagens abrem horizontes muito largos para as crianças e elas estão a ter uma experiência única. Cada porto por onde passam traz imenso conhecimento para todos, por isso devem ter planeado cuidadosamente a vossa rota. Têm conseguido cumpri-la ou a própria dinâmica da viagem tem trazido alterações?

JA: A primeira metade da rota planeada foi cumprida, começamos nos Açores, passamos pelo Porto Santo, Canárias, Cabo Verde, Caraíbas, Colômbia, Panamá, Ecuador, Polinésia Francesa, Samoa, Solomon Islands, Papua Nova Guiné, Timor Leste e Indonésia, onde estamos agora. A segunda metade da viagem é que será diferente do planeado, pretendemos passar pela Tailândia, Sri Lanka, Mar Vermelho, passar pelo Canal de Suez e entrar no Mediterrâneo, em vez da volta por África do Sul, Brasil, Caraíbas, Bermuda, Açores. A alteração de planos deveu-se à falta de tempo. Agora sim, sabemos que dois anos é muito pouco para uma viagem desta natureza… Estamos um pouco receosos com a passagem pela Somália e Mar Vermelho e já agora fazemos um apelo de apoio à Marinha Portuguesa para atravessarmos mais seguros essa zona!

RM: Essa travessia inspira alguma preocupação, mas até lá terão tempo para a preparar e decidir com todos os cuidados. Desde novembro de 2016 em Ponta Delgada, até janeiro de 2018 em Bali. Uma viagem já tão grande, que percorreu um número considerável de lugares, leva sempre a descobertas. Algumas de certo que vos maracaram. Queres contar?

JA: Temos aprendido muito sobre o mundo e sobre nós próprios mas a nível da viagem, a nossa maior descoberta foi Makira Harbour, na Ilha de S. Cristobal nas Solomon Islands. Nesta incrível baía de águas quentes e cristalinas encontramos uma vila indígena cheia de crianças curiosas e alegres. Os adultos também pararam todos para nos receber, ofereceram-nos colares de flores e mostraram-nos como viviam, de sorriso nos lábios. Foi uma experiência que jamais esqueceremos!

Leo a brincar com as crianças de Makira harbour, nas ilhas Salomão

RM: Para terminar a nossa entrevista, pedia-te um episódio que vos tenha marcado especialmente.

JA: Neste ano que passou vivemos vários episódios marcantes, tanto pela positiva como pela negativa. Um caricato foi quando navegámos em águas venezuelanas. Aconselharam-nos a não parar naquele incrível país dada a sua difícil situação económica e por já terem sido reportadas situações de roubos e pirataria.  Certa noite, o Armindo percebeu que estávamos a ser seguidos por um barco sem detalhes de identificação no AIS. Durante cerca de 4 horas ele ocultou a sua preocupação a bordo, até que decidiu contar-me. Após deitarmos os meninos e cinco horas de grande ansiedade, entramos em contacto via rádio com a embarcação, supostamente inimiga, pois a fuga estava fora das nossas possibilidades. Preparamo-nos para lhes entregar tudo o que pedissem em troca de paz. E não podíamos ter ouvido melhor resposta à nossa chamada: – “BENYLEO – sailing boat, this is U.S. Navy patrol”!

E assim nos despedimos, por agora, da Joana, do Armindo, da Beni e do Leo, que continuam a sua fabulosa aventura.

Leo, Armindo, Beni e Joana

A Revista de Marinha deseja-lhes muita saúde e boa viagem, e aos nossos leitores pedimos que os sigam no site www.azoreanfamily.com e na página de Facebook e lá deixem muitos comentários e palavras de encorajamento.

Oficial da Marinha de Guerra. Especializou-se em submarinos, onde navegou cerca de seis anos. Foi representante nacional na NATO para Electronic Warfare e Psychologic Operations. Esteve colocado cerca de sete anos nos Açores onde foi Autoridade Marítima local. Em 1997 ganhou o prémio de melhor colaborador da Revista da Armada.