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Os efeitos psicológicos nefastos são suscetíveis de ocorrer pela privação da vivência das relações de conjugalidade, parentalidade ou de outro tipo de relação familiar, podendo ocasionar significativa redução na satisfação pessoal e com a vida

No final de 2020 a Organização das Nações Unidas (ONU) alertou para o “impacto negativo profundo” da pandemia por COVID-19 sobre cerca de 400 mil pessoas isoladas no mar (marinheiros, profissionais e passageiros de navios e embarcações).

As proibições de viagens, restrições de embarque e desembarque implicam que os marítimos tenham de permanecer a bordo para além do tempo inicialmente previsto. No caso específico de determinadas missões que as Marinhas levam a cabo durante as pandemias, o tempo de permanência no mar é excessivamente longo, dada a impossibilidade de tocar em terra, e quando tocam, não podem desembarcar. Nas circunstâncias de prolongamento de uma missão ou de um contrato de trabalho acentua-se a fadiga física e psicológica, fatores que comprometem o bem-estar de quem trabalha e aumentam o risco de erro humano.

A guarnição da fragata NRP CORTE REAL à chegada a Lisboa, depois de cinco meses ininterruptos no mar devido à COVID-19. Devido à pandemia os militares portugueses não puderam usufruir das normais licencas a terra. E o mesmo se passa com todas as guarnições de todos os navios militares no mundo. (imagem MGP)
A guarnição da fragata NRP CORTE REAL à chegada a Lisboa, depois de cinco meses ininterruptos no mar. Devido à pandemia os militares portugueses não puderam usufruir das normais licencas a terra. E o mesmo se passa com todas as guarnições de todos os navios militares no mundo. (imagem MGP)

Mesmo nos casos em que as mudanças de tripulação continuam a realizar-se ou são autorizadas, deparam-se com dificuldades de se deslocar para o país onde devem apresentar-se a bordo, devido às limitações nas fonteiras e à elevada redução ou quase inexistência de transportes e de ligações entre eles.

Dentro dos efeitos causados por esta crise pandémica, incluem-se os que se relacionam com a saúde mental e física e com a liberdade de deslocação ou da vida familiar.

Os efeitos psicológicos nefastos são suscetíveis de ocorrer pela privação da vivência das relações de conjugalidade, parentalidade ou de outro tipo de relação familiar, podendo ocasionar significativa redução na satisfação pessoal e com a vida. É facto inegável a importância da família no bem-estar e na qualidade de vida das pessoas, na medida em que esta estrutura é percecionada como um porto de abrigo, que oferece suporte, cuidados e proteção. Concorre para o impacto nocivo psicológico nos marítimos a sensação de aprisionamento no mar, ditado pelas circunstâncias pandémicas, sem que nada possam fazer para as alterar. Os tempos de enorme incerteza que se vivem, face ao presente e ao futuro, constituem-se, do mesmo modo, como experiências emocionais indesejáveis, capazes de gerar muito sofrimento mental.

Um oficial de quarto redige o diário náutico, um gesto de rotina que se repete à séculos (imagem Johannes Bargmann)
Um oficial de quarto redige o diário náutico, um gesto de rotina que se repete à séculos (imagem Johannes Bargmann)

A capacidade que uma pessoa tem para lidar com os seus problemas e superar momentos difíceis perante adversidades fica, por estas razões, suscetível de se fragilizar. Estados de ansiedade, stress, ataques de pânico, medos e estados depressivos estão entre os problemas de saúde mental com mais prevalência perante circunstâncias sentidas como muito exigentes ou de difícil solução, como a que agora enfrentamos.

Resultados de um dos maiores estudos realizados em Portugal sobre o impacto da pandemia por COVID-19 revelaram que quase metade da população portuguesa encontra-se psicologicamente afetada pela atual crise, com sintomas “moderados a graves” de depressão, ansiedade e stress.

as entidades empregadoras também têm um papel crucial na saúde daqueles que exercem a sua profissão, longe de condições desejáveis, criando ações de sensibilização e garantindo a todos o acesso a consultas de prevenção, avaliação e intervenção na saúde mental

A pandemia tem exigido mudanças na forma como nos relacionamos uns com os outros, como exercemos a parentalidade e a cidadania, e como trabalhamos e organizamos, social e individualmente, o dia-a-dia. Contrariamente ao que seria desejável, muitas das pessoas sentem-se com dificuldade ou incapazes de gerir os estados emocionais que provocam sofrimento, com sintomatologia que tende a persistir, embora possa variar em termos de conteúdo, intensidade e frequência.

A engenheira Angelica Cuyno na ponte do seu navio (instagram @cuyonoangelica2195)
A engenheira Angelica Cuyno na ponte do seu navio (instagram @cuyonoangelica2195)

Sabemos que a saúde mental, tal como a física, é determinante para o bem-estar e qualidade de vida de todas as pessoas. Quando o sofrimento psicológico ocorre e causa desconforto ou prejuízo no funcionamento pessoal, familiar, profissional e social, procurar a ajuda especializada de um psicólogo é uma atitude de autocuidado deveras importante, que visa melhorar o equilíbrio emocional, cognitivo e comportamental. Do mesmo modo, é de sublinhar que as entidades empregadoras também têm um papel crucial na saúde daqueles que exercem a sua profissão, longe de condições desejáveis, criando ações de sensibilização e garantindo a todos o acesso a consultas de prevenção, avaliação e intervenção na saúde mental.

N.R.  A autora colabora regularmente com a plataforma SAPO Lifestyle