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Mami Pereira na varanda do Hotel Veneti, Rua 31 de Janeiro, Panjim (cortesia Mami Geographic)

Nas aldeias desta região, as famílias goesas ainda mantêm o seu estatuto. Contei dezasseis grandes janelas alinhadas na fachada de uma casa cujo salão tinha trinta e seis passos de comprimento. Noutra, vi no celeiro uma grande arca de madeira maior que os maiores barris de vinho do Porto, muito maior que as barracas em que vivem famílias inteiras nos arredores de Bombaim.

O colonialismo, mesmo que ainda sem este nome e estigma, foi um processo cultural (portanto, muito para além de político, militar ou económico) que acompanhou toda a expansão marítima, mas que foi típico do século XIX.

Felizmente, este estado de coisas foi ao longo do século seguinte, e sobretudo da sua segunda metade, colocado em causa, primeiro, combatido, depois, e finalmente eliminado, pelo contra processo da descolonização, e as vítimas do colonialismo puderam assenhorear-se do seu destino.

Dr. Adelino Fernandes Vaz na sua machila rasa (Bilhete postal, Índia Portuguesa, ed. Benjamim Sequeira, Nova Goa, 1890, via Facebook/ Revisitar Goa)
Dr. Adelino Fernandes Vaz na sua machila rasa (Bilhete postal, Índia Portuguesa, ed. Benjamim Sequeira, Nova Goa, 1890, via Facebook/ Revisitar Goa)

Portugal participou activamente nos dois processos, embora no segundo tardiamente, e quando a história já começava a trilhar outros rumos.

A atitude sucessivamente colonizadora e descolonizadora, só esteve ao alcance dos grandes da História, ou seja, daqueles que, exceptuando a Bélgica, empreenderam a aventura marítima, oferecendo ao mundo naquela altura contemporâneo, o resto do mundo que lhe era desconhecido, e isto, em parte atenua o egocentrismo destes grandes, que passaram a considerar seu tudo aquilo que descobriam.

E Portugal, foi grande entre os maiores, espalhando-se por todo o mundo onde houvesse mar, e com particular destaque no Atlântico Sul, o Mar Etiópico, o nosso mar.

O estatuto de grande potência marítima e colonial, levou naturalmente Portugal a entrar em conflito com todos aqueles que nas diversas paisagens longínquas e exóticas, disputavam os mesmos espaços e interesses. Na América do Sul com os espanhóis, com os holandeses nas 17 508 ilhas da Indonésia, e no Brasil, aqui, também com os franceses, e na Índia com os ingleses.

Palácio do Governador Geral - Nova Goa (Bilhete Postal, Índia Portuguesa, ed. Cristovam Fernandes, ca 1902, via Facebook Revisitar Goa)  
Palácio do Governador Geral – Nova Goa (Bilhete Postal, Índia Portuguesa, ed. Cristovam Fernandes, ca 1902, via Facebook Revisitar Goa)

Na Índia, a convivência entre o Império Português e Britânico, não atinge a aspereza do confronto, e uma vez que gradualmente os portugueses foram sendo condicionados pela mais antiga aliança do mundo, e pela gradual dependência que íamos adquirindo da robustez do velho leão, para solucionarmos os nossos problemas europeus, sobretudo a partir da recuperação da independência em 1640, feita sob a égide da Casa de Bragança, fortemente apoiada por Londres.

E sobretudo, porque quase em simultâneo, Portugal desviou para o Brasil toda a ideia do ultramar, e a Inglaterra fez outro tanto em relação à Índia.

Porto de Pangim, ca 1940 - (Bilhete Postal, Índia Portuguesa, ed. Cristovam Fernandes, via Facebook Revisitar Goa)
Porto de Pangim, ca 1940 – (Bilhete Postal, Índia Portuguesa, ed. Cristovam Fernandes, via Facebook Revisitar Goa)

Em 1600, no último dia do ano, a Rainha Isabel I de Inglaterra, concedeu uma autorização à Companhia Britânica das Índias Orientais para comerciar com o oriente.

Assim, oito anos mais tarde, os primeiros navios da companhia chegam ao subcontinente indiano.

O poder da Companhia vai aumentar significativamente, em força, riqueza e expansão geográfica, de tal maneira que só em 1757 é que o governo inglês se estabelece na Índia, criando aí a sua primeira base, mas num projecto ainda financiado e participado pela Companhia.

O Governador-geral Arnaldo Guedes Rebelo e sua família fotografados na varanda do Palácio do Cabo em Goa. 1907, (António Cotrim via Facebook Memórias da Índia Portuguesa)
O Governador-geral Arnaldo Guedes Rebelo e sua família fotografados na varanda do Palácio do Cabo em Goa. 1907, (António Cotrim via Facebook Memórias da Índia Portuguesa)

Depois disto, numa acção concertada a partir de Londres, o poder da Companhia e o do governo britânico, não param de fazer variar a sua importância na razão inversa, passando pela criação em 1773, pelo Parlamento, do cargo de governador da Índia, os celebrados vice-reis, até à coroação da Rainha Vitória em 1877, como Imperatriz da Índia.

Entretanto, por meados da década de setenta do século XVIII, a Inglaterra viu os seus territórios da América do Norte adquirirem a independência, para constituírem aquilo que se denominou como Estados Unidos da América, e desde essa altura que a política externa inglesa, se vira decididamente para o oriente.

Ou seja, os interesses comerciais, territoriais, militares, culturais, numa palavra, imperiais, britânicos passam a situar-se à direita do meridiano de Greenwich, a oriente de Londres. Um oriente tão próximo como a Ilha de Malta e tão longínquo como a Austrália.

East India House, sede londrina da East India Company, ca 1800, por Thomas Malton the Younger.
East India House, sede londrina da East India Company, ca 1800, por Thomas Malton the Younger.

Esta ideia de orientalidade fica perfeitamente patente em África, com o projecto do Cairo ao Cabo, que vale quase tanto para os ingleses, como o desígnio, ou destino, manifesto dos norte americanos, de estenderem o seu território entre o Atlântico e o Pacífico, de este a oeste.

Mas centrado na Índia. A Índia confere a noção de orientalidade do Império Britânico. Ela serve e tem que ser servida.

Esta ideia de orientalidade fica perfeitamente patente em África, com o projecto do Cairo ao Cabo, que vale quase tanto para os ingleses, como o desígnio, ou destino, manifesto dos norte americanos, de estenderem o seu território entre o Atlântico e o Pacífico, de este a oeste.

Desta forma, o ultramar inglês passa a ser o Índico, o qual com o Pacífico, constituem o conceito, e o interesse, ultramarino inglês. O Atlântico, sobretudo o Norte, constitui apenas o domínio da Home Fleet, suficientemente forte, contudo para derrotar Napoleão, e vencer as duas guerras mundiais.

Até o Mediterrâneo, Gibraltar inclusive, o grande lago, constituía um cordão sanitário para afastar indesejáveis, fossem franceses, turcos, russos ou alemães, da Índia.

Com maior ou menor esforço e sacrifício, com um particular destaque para a revolta dos sipaios em 1857-1858, os ingleses puderam conservar o conto das mil e uma noites do Raj britânico, até a situação se alterar profundamente com o final da segunda guerra mundial.

Mapa do Império Britânico, publicado em 24 de julho 1886 como suplemento do semanário ilustrado The Graphic.
Mapa do Império Britânico, publicado em 24 de julho 1886 como suplemento do semanário ilustrado The Graphic.

No meio ficava Gandhi, Mohandas Karamchand Gandhi, o Mahatma (Alma   Grande) Gandhi, que pressentia já aquilo que na realidade viria a acontecer, a divisão da sua adorada Índia em dois países. A União Indiana e o Paquistão.

A independência da Índia, era à boa maneira inglesa, uma coisa que estava entendida desde o primeiro dia que os britânicos puseram o pé no subcontinente, mas na qual nunca pensaram suficientemente a sério.

Também nunca acharam possível que hindus e muçulmanos alguma vez   viessem a colocar-se de acordo quando a um modelo de independência, e enquanto isso não acontecesse era dever da coroa britânica, aguentar ali estóica, a assegurar a paz entre as duas grandes populações.

Mas agora ia chegar ao fim o white man’s burden, cantado por Rudyard Kipling, o bardo do Império.

Aquele quadro alterou-se abruptamente no final da guerra, quando hindus e muçulmanos finalmente se colocaram de acordo quanto à forma de resolverem os seus problemas numa Índia independente.

Os primeiros em torno do Partido do Congresso, do Pandita Jawaharlal Nehru, e os segundos, da Liga Muçulmana de Mohammed Ali Jinnah.

No meio ficava Gandhi, Mohandas Karamchand Gandhi, o Mahatma (Alma   Grande) Gandhi, que pressentia já aquilo que na realidade viria a acontecer, a divisão da sua adorada Índia em dois países. A União Indiana e o Paquistão.

Gandhi com o casal Mountbatten, 1947.
Gandhi com o casal Mountbatten, 1947.

Mas uma vez os indianos (hindus e muçulmanos) em sintonia, a independência da Índia, seria imparável, e travá-la não estaria ao alcance dos ingleses, como não esteve na data histórica de catorze de Agosto de mil novecentos e quarenta e sete, quando o último Vice-Rei, o Almirante Louis Mountbatten, no mesmo dia, e separado por horas, deu a independência primeiro ao Paquistão e depois à Índia.

Incrustado a poucos quilómetros de Bombaim, ficava cravado na União Indiana o território português de Goa, Damão e Diu, corporizado pelo primeiro deles, Goa. Goa, a Índia Portuguesa.

Goa, só viria a ser incorporado à União Indiana, nos últimos dias de 1961, num processo dramático, onde a ausência de diálogo resultou na invasão do território por parte de forças indianas.

Fronteira portuguesa com a União Indiana 1950 (foto LIFE via Facebook Memórias da Índia Portuguesa)
Fronteira portuguesa com a União Indiana 1950 (foto LIFE via Facebook Memórias da Índia Portuguesa)

Muito antes disto ter acontecido, naquele território imenso do subcontinente, onde se aglomeravam e conviviam povos, nacionalidades e modelos administrativos, que englobavam grandes reinos independentes, o Raj britânico, territórios portugueses e franceses, hindus, muçulmanos, sikhs, parsis, rajás, nababos, marajás, brâmanes, e dalits, existiu sempre uma prática de observação de cenários contrastantes.

Os viajantes que ali chegavam maravilhados e permaneciam algum tempo percorrendo o território, atravessando fronteiras difusas ou espessas, comparavam os estilos de vida, os níveis de conforto, em suma o padrão civilizacional.

E era com algum espanto que o minúsculo território português de Goa, saía sempre bem deste processo. Mesmo quando a comparação envolvia a poderosa Inglaterra, anglo-saxónica, protestante, e o outrora poderoso Portugal, latino e católico.

O Dessay de Arabó e os seus homens. Forte aliado das forças militares portuguesas durante na repressão dos Ranes rebeldes, nas Campanhas de Pacificação de 1895 (foto via Facebook Memórias da Índia Portuguesa).
O Dessay de Arabó e os seus homens. Forte aliado das forças militares portuguesas durante na repressão dos Ranes rebeldes, nas Campanhas de Pacificação de 1895 (foto via Facebook Memórias da Índia Portuguesa).

Pelo contrário, os portugueses num misto de dignidade e pragmatismo, numa população permanentemente (ainda hoje) escassa, nunca abandonaram a convivência (promiscuidade, segundo os ingleses) social.

Os benefícios do progresso e tradição ingleses, dificilmente eram disseminados nas populações locais, à quase excepção da ideia parlamentar, e para mágoa dos indianos, os impostos.

Uma coisa aproximou a cultura inglesa e indiana, e que não estava ao alcance dos portugueses. A imensa estratificação social.

Nem a distância a que os separava de Hyde Park, fazia os ingleses abrandarem a vigilância dos sinais típicos de classe, e foi com surpresa que os acharam ténues, quando comparados com os atributos, sinais e tiques das castas indianas.

Pelo contrário, os portugueses num misto de dignidade e pragmatismo, numa população permanentemente (ainda hoje) escassa, nunca abandonaram a convivência (promiscuidade, segundo os ingleses) social.

Basilica do Bom Jesus, 2013 (foto Bishnu Sarangi)
Basilica do Bom Jesus, 2013 (foto Bishnu Sarangi)

O Deus era o mesmo. Mas os ingleses pregavam a sua palavra através de pastores protestantes, integrados no intrincado quadro do funcionalismo colonial, que ia dar a Canterbury, e que se não dependia do governo, dependia da coroa.

No caso dos portugueses, a palavra de Deus vinha de Roma, e chegava pregada por padres católicos, que não obedeciam às ordens dos Vice-Reis, e mais tarde dos governadores. E para uma população ávida de santidade, fazia-se acompanhar de uma legião de santos, alguns deles dali mesmo, como S. Francisco Xavier.

Com toda a Índia final e completamente independente, com as facilidades de circulação, era a ocasião desejada para fazer nova, avaliação entre as duas Índias que tinham resultado das duas independências, a inglesa e a portuguesa.

Nada melhor do que um inglês para realizar esta prova. Graham Greene.

Nem mais. Um dos melhores escritores do mundo naquela altura, contando já na sua obra, com livros como A inocência e o pecado, O nó do problema, ou O nosso agente em Havana. E outras obras geniais que ainda estavam por vir.

Graham Greene (1904–1991)
Graham Greene (1904–1991)

Em Dezembro de 1963, Greene visita Goa, exactos dois anos depois da incorporação do território na União Indiana. Socialista, Graham Greene não tem a menor simpatia por qualquer tipo de colonialismo, viesse de que lado viesse, mas ficou encantado com os vestígios ainda recentes da nossa administração do território, feita de séculos.

E sobretudo não deixa de reparar na diferença substantiva do quotidiano em Goa, e na restante Índia, sobretudo na tão britânica Bombaim.

Um ano mais tarde as suas impressões e registos, são publicados num artigo que ficou famoso, saído na edição de 1 de Março do jornal Sunday Times, intitulado Goa, the unique.

Ainda hoje é um prazer, pela prosa maravilhosa, e um orgulho, pelo reconhecimento do nosso trabalho, ler aquele artigo.

Ao chegarmos à primeira aldeia indiana fora de Goa a caminho de Bombaim, voltamos às casotas de lama e tábuas partidas que quase parecem ricas ao pé das horríveis pequenas cabanas que vemos nos arredores de Bombaim, feitas de folhas de palmeira, fragmentos de tecido e pedaços de metal de todos os géneros. Isto são habitações de onde dá vontade de fugir;

E o oposto.

Casa dos Bragança  (Governo de Goa, Heritage Mansions)
Casa dos Bragança  (Governo de Goa, Heritage Mansions)
Casa dos Bragança  (Governo de Goa, Heritage Mansions)
Casa dos Bragança  (Governo de Goa, Heritage Mansions)

Fora de Goa estão sempre perante nós intermináveis ruínas, a enorme pressão da pobreza, a estender-se, a ramificar-se, cobrindo tudo como uma inundação. Não é um problema de religião, a aldeia hindu de Goa pode ser distinguida das da Índia tão facilmente como as cristãs e não é preciso insistir na diferença com placas fronteiriças.

As casas de Goa foram feitas com piedade para durarem muito tempo.

Mais à frente.

Tão-pouco se ouve uma palavra sequer contra os portugueses como pessoas.

E a conclusão.

Goa, um sítio sem igual.