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Um grupo de entusiastas e ex-militares brasileiros e franceses criou o Instituto São Paulo|Foch, com a finalidade de preservar o porta-aviões SÃO PAULO, transformando-o num museu (e muito mais).

O Instituto, no seu site na internet, assinala a intenção de criar espaços para múltiplas atividades, tais como área para a família e berçários, museu aberto, museu fechado, restaurantes, hotel, oficinas e escritórios, salas de aulas, barbearia e salão e até, um cinema ao ar livre. A instituição afirma-se na vontade de se responsabilizar pela preservação e manutenção do SÃO PAULO.

De que navio estamos a falar?

O NAe (Navio-Aérodromo, de acordo com a designação na Marinha do Brasil) era originariamente o FOCH, um dos dois navios de 265m de comprimento e 32.800 toneladas, da classe CLEMENCEAU. Esteve ao serviço da Marine Nationale entre julho de 1963 e novembro de 2000, altura em que foi transferido para o Brasil, por 20 milhões de euros. Na Marinha do Brasil, substituiu o já velhinho NAe MINAS GERAIS, tendo operado com normalidade entre 2001 e 2004. Tudo indicava que o Brasil iria finalmente possuir um verdadeiro porta-aviões, com jatos de ataque A-4 Skyhawk, aviões turbo-hélice S-2 (ASW) e C-1 Trader (Carga), helicópteros ASW e de transporte de tropas.

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O porta-aviões SÃO PAULO, a navegar com a sua escolta (foto Marinha do Brasil)

Mas, infelizmente, um grave incêndio em 2004 e outro em 2012, puseram um fim prematuro a essa realidade. Depois deste último, os fabricos necessários para reparar e modernizar foram estimados em mil milhões de Reais (255 milhões de euros), um valor considerado excessivo pela chefia da Marinha. A decisão seguinte foi desactivá-lo. Neste momento o navio continua atracado no cais do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, aguardando decisão quanto ao seu futuro.

Quando se pensa em fazer um navio-museu desta dimensão, é importante conhecer exemplos semelhantes, como o caso do cruzador francês COLBERT.

Em junho de 1993, o cruzador francês COLBERT (1956, 190m, 9.000 tons) tornou-se um museu flutuante por iniciativa da associação “Les Amis de Colbert”, tendo sido atracado no quai des Chartrons no porto de Bordeaux. Foi o navio-museu mais visitado da França em 2004 e o “monumento” mais visitado da cidade. O COLBERT era um museu peculiar, porque o navio continuou pertença do estado, enquanto cedido à “Les Amis de Colbert”. No castelo do navio foi montado um restaurante, sendo as refeições confecionadas nas antigas cozinhas originais.

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O cruzador COLBERT, atracado em Bordeaux, em 1999.

No entanto, as receitas nunca foram suficientes para fazer face às despesas de manutenção, como por exemplo os mais de 500.000,00€ (quinhentos mil euros) necessários para pagar uma pintura completa do navio. É que, mesmo no cais, por razões de segurança e imagem, os navios exigem manutenção constante.

Sem a possibilidade de financiamento e sobre a pressão das associações ecologistas locais e da Prefeitura de Bordeaux, o COLBERT fechou ao público em 2 de outubro de 2006, 13 anos após a sua abertura. Em 2007 fez a sua última viagem, rebocado pela Marinha Francesa, que o amarrou a uma das bóias do cemitério de navios de Landévennec, perto de Brest. Seria desmantelado em Bassens, juntamente com Jeanne d’Arc, em 2017.

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O COLBERT, em outubro de 2015, amarrado à bóia, no cemitério de navios de Landévennec, perto de Brest (foto Martine Cousson)

Um sonho…

A manutenção dum navio é cara. No entanto, quando ele navega integrado na esquadra, muitos dos pequenos trabalhos são realizados pelas centenas de homens e mulheres da sua guarnição e esse custo dilui-se nas horas de mão de obra dos militares, já pagas pelo estado. Uma vez tornado museu, o navio passa a ter de contratar empresas para todos esses trabalhos. E, no caso dum navio-museu a flutuar, ainda tem de se considerar as indispensáveis docagens.

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O navio aeródromo São Paulo, atracado na ilha de Mocanguê, com uma cerimónia a decorrer no convés de vôo. (foto Marinha do Brasil)

Não temos dúvidas que o SÃO PAULO tem potencial para despertar a curiosidade de muitos visitantes, mas será isso suficiente para assegurar a viabilidade económica do projeto? Mesmo considerando que o Instituto São Paulo|Foch conseguiria a isenção do IPTU (Imposto sobre a propriedade Predial e Territorial Urbana), bem como a atribuição de recursos ao abrigo da lei de incentivo à cultura ou da renúncia fiscal prevista na Lei Federal, para a sua conservação, adaptação e manutenção, parece muito difícil que se encontrem os recursos totais necessários para uma empresa que, em termos financeiros será ainda maior que a do COLBERT.